O PARTICIPANTE DA CEIA DO SENHOR

O PARTICIPANTE DA CEIA DO SENHOR

O interessante escritor F. F. Bruce é perentório nesta perspetiva de compromisso uno de vida ao afirmar que

  A participação eucarística em Cristo, como a incorporação batismal em Cristo… envolvem        compartilhar a vida comum no corpo de Cristo com todos os outros crentes, e arcar, junto       com eles, com os sérios corolários éticos que os cristãos ignoram por própria conta e     risco.”[1]

         Assim, na eucaristia o participante testifica que não é possível comungar simbolicamente com o corpo físico de Jesus sem comungar com o Seu corpo místico – a Igreja; e, seguindo Bruce, corresponder também às obrigações éticas dessa vida comum.

         Temos visto com alguma acuidade a perspetiva do crente comprometido face a Cristo e também ao Seu corpo – a Igreja. A Igreja[2] passa a desempenhar um papel importante de reconhecimento e manutenção, visando manter a sadia unidade emanada do compromisso com Cristo e da dinâmica espiritual do Espírito Santo nos crentes e através deles. Desenvolve-se assim “uma estrada com dois sentidos”, onde não se esgota a entrega particular do crente ao se sentir (re)compensado pela igreja a que se tem entregado.

         A igreja local[3], afirma A. Gilbert, deve ter a certeza de que o recém-vindo está são na fé, e que coaduna a sua vida a esta fé; coloca também à sua responsabilidade a preservação da santidade desta mesa e a pureza da casa de Deus.[4] E continua, numa perspetiva rigorosa, chegando ao ponto de achar que não pode ser recebido alguém excluído noutro lugar, como também não se pode recusar alguém já aceite noutro lugar, sob pena de negar a unidade de Cristo.[5]

         No âmbito de quem é digno de participar na Ceia, e partindo do princípio de que não sabemos exatamente quais os pré-requisitos para a membrasia das igrejas do Novo Testamento, Millard Erickson apresenta sugestões para a ação da igreja:

Uma: disciplina a quem for achado em pecado flagrante, afastando-o do pão e do cálice.

Outra: depois da explicação do significado da Ceia e da maneira como dela participar,     deixar a decisão de tomar ou não com o próprio.[6]


         Resumindo: o fator membrasia predispõe o crente a preservar uma atitude de identidade com o corpo de Cristo – os outros membros, tal como ele – e a tomar a Ceia como sinal de uma vida cristã responsável. É deveras importante preservar a unidade do corpo de Cristo.

         À igreja local cabe assumir os pressupostos que a tornam expressão nuclear da Igreja Universal. Aqui torna-se discutível o papel, ou que tipo de papel, ela desempenha como disciplinadora. Independentemente do tipo de disciplina a vigorar, julgo a igreja local dever minimamente garantir que o seu membro viva os princípios óbvios de um membro do corpo de Cristo, da Igreja Universal.

         As igrejas de hoje vivem essencialmente os mesmos desafios de sempre: o privilégio e dever de chamar a si os membros do corpo universal de Cristo, congregando-os, ensinando-os, unindo-os e mantendo-os comprometidos com o mesmo corpo de doutrina. Isto é o que se espera de uma igreja cristocêntrica.

         Da perspetiva do crente: este aguarda uma igreja que pregue a sã doutrina, mantenha um ambiente e uma dinâmica espirituais, respondendo às suas necessidades como pessoa total.             Os deveres e direitos inerentes “aos dois lados da barricada” geram uma tensão entre ambos. Importante é perceber que a comunhão pessoal do crente com Deus e o compromisso com a Sua Igreja – via igreja local – asseguram da parte Dele, e por meio dos outros crentes, a manutenção e o vigor da sua vida espiritual “até chegarmos lá!”. Creio nisto veementemente!


[1] Bruce, 2003, p. 277

[2] A Igreja torna-se um organismo uno, visto cada um contribuir para a unidade e composição do único corpo de Cristo na Terra.

[3] A temática de Igreja Universal e igreja local exige um tratamento muito específico e profundo. Aqui, basta-nos entender que é no local que se ratifica os princípios e valores espirituais da Igreja Universal; ou seja, onde cada crente justifica a sua integração no corpo universal de Cristo.

[4] Gilbert, pp. 62, 63

[5] Ibid., p. 66

[6] Erickson, 1997, p. 474

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