Considero que é exigido ao corpo de Cristo um
testemunho público de unidade. Ao tomarmos os símbolos, anunciamos a morte do
Senhor Jesus, mas também o seu consequente alcance: a comunhão de todos e os
exemplos pessoais vívidos! Há privilégios e responsabilidade no coletivo dos
crentes.
Partir do pão ou Ceia do Senhor
Na estrutura litúrgica e dinâmica de uma Igreja Primeva e em crescimento encontramos os pilares da “doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.” (Atos 2:42). O ato “partir do pão” (imitador do por Jesus realizado aquando a instituição da Ceia?) ganha lugar e formato doutrinal no culto comunitário da igreja, tal como encontramos no mesmo livro de Atos (20:7): “No primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão…”.
Propósitos
A Igreja reunia-se e no seu “mundo” muito exclusivo festejava em harmonia e promoção de seu Senhor. O escritor Russell Champlin define essas festas como sendo três:
1. Festa ágape ou do amor, que consistia numa refeição comum;
2. Lava-pés (vide João 13:2-20), importante para algumas comunidades;
3. Ceia do Senhor “em que se partia o pão e distribuía o suco da videira, em memória do
Senhor Jesus e Sua expiação, e em antecipação ao Seu segundo advento, como sinal de fé nessa realidade futura.[1]
Segundo Atos 2:46, o partir do pão era feito nas casas particulares,
afirmando Williston Walker que servia como vínculo de comunhão e meio de
sustento para os necessitados, e a continuação e o memorial da última Ceia do
Senhor com seus discípulos, antes de ser crucificado.[2] De
notar é o contexto onde o escritor Lucas enquadrou este ato/ritual – parece que
a Igreja Primeva aglutinou as suas necessidades à ordenança do Senhor: a
comunhão entre os participantes ganhou expressão no cuidado efetivo dos mais
pobres.
Outro fator sugestivo é denunciado pela obra “A Igreja, Corpo de Cristo e o Testemunho do Senhor”, no que respeita à unidade do corpo de Cristo, como segue:
A unidade do corpo de Cristo é… a
única base sobre a qual assenta a mesa do Senhor, e outra não há. O lugar pertence exclusivamente,
aos verdadeiros crentes, resgatados pelo sangue
de Cristo, porque a «comunhão do sangue de Cristo» e «a comunhão do corpo de Cristo» só a eles pertencem, e ali se encontram
como membros do único corpo. Expressam esta
importante verdade, participando de um só
pão.[3]
Pode ser discutível (o que para mim é tema secundário) o tipo e a quantidade de pão, se o pão deve ou não ser partido, se tem de ser apenas um… O que deveras interessa é o propósito proposto acima: a unidade que um só pão representa. Todos juntos “somos um só pão”!
Claro que podemos colocar a seguinte questão: Como é que “partir” sugere unidade? Um texto de “A Santa Igreja” declara que
Ao participar realmente do corpo do Senhor, na fração do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós. «Porque há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, visto participarmos todos do único pão» (1 Cor 10, 17). E deste modo nos tornamos todos membros desse corpo (cfr. 1 Cor 12, 27), sendo individualmente membros uns dos outros» (Rom.12,5)[4]
Aí está: o partir do pão permite a cada um tomar um pouco do símbolo do
corpo físico do Senhor, o que o torna “parte Dele”. Consequentemente,
cada um se associa aos outros, formando o corpo místico de Cristo – a Igreja.
Objetivamente, ao tomar-se o pão partido ratifica-se a unidade espiritual que a
morte de Jesus propunha! Como por vezes imagino (até parece ridículo!): a única
forma de se poder reaver o pão de onde surgiram cada um dos pedaços seria pela
devolução que cada participante fizesse do pedaço a si entregue!
[1] Champlin, s/d,p. 176
[2] Walker, 1967, p. 42
[3] A Igreja, Corpo de Cristo e o Testemunho do Senhor, 1982,p. 4
[4] A Santa Igreja, 1979, pp. 12, 13