De notar que Tertuliano defendia que o batismo nas águas tornava o participante num cristão e que na inocência não havia necessidade de remissão de pecados.
A Ceia tinha um papel tão sacro e
virtuoso que o teólogo João Wesley cria
na renovação da imagem de Deus nas almas de quem a tomava.[1] (É
aqui que retomamos o conceito que Cipriano tinha da Ceia como fonte de vida.)
Cabe aqui um dos 28 artigos da Confissão de Augsburgo, redigida como declaração de fé em 1530, bem demonstrativo de como a doutrina da consubstanciação revia no ato eucarístico uma virtualização do mesmo:
Ensinamos com respeito à ceia do Senhor que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue
de Cristo estão realmente presentes sob o pão e o vinho e são distribuídos e recebidos na
santa ceia. Rejeita-se, por esse motivo,
qualquer doutrina contrária.”[2]
Por outro lado, se acreditou também na não virtualização deste importante ato. É necessário desmistificar a sacramentalização da Ceia, referindo que o seu ritual não transmite qualquer poder ou graça, mas “funciona” como lembrete do que já é experiência de vida de quem aceitou a obra de Cristo. É o momento para se colocar as seguintes questões:
1. E o batismo também é virtualizante?
2. As águas batismais têm a virtude de operar mudança no batizando?
3. O batizador torna-se mais santo pelo fato de entrar nas águas e realizar um ato ordenado pelo Senhor? É claro que não!
Argumento simples mas deveras acutilante esboça o Catecismo de Heidelberg, na sua pergunta 78:
P. Tornam-se, pois, o pão e vinho, realmente, no corpo e no sangue de Cristo?
R. Não; mas do mesmo modo que no Batismo a água não é mudada no sangue de Jesus
Cristo, nem ela é a própria purificação dos nossos pecados, mas sòmente o sinal divino e a
segura promessa, igualmente na Ceia o pão não se torna no próprio corpo de Jesus
Cristo…[3]
É um argumento muito
interessante: o rito não necessita de virtualização para fazer jus ao seu
verdadeiro propósito – servir de lembrete. A “virtualização” dá-se no interior
do participante; é na sua intimidade com o Senhor a quem obedece que se dá a
bênção!
[1] Coletânea da Teologia de João Wesley, 1960, p. 272
[2] A Confissão de Augsburgo e os Credos Ecumênicos, 1961, p. 11
[3] Catecismo de Heidelberg, 1959, p. 43