Os sinóticos colocam na mão de Jesus o que, segundo Ele mesmo quiz, tinha de ser transferido ritual/simbolicamente – que objetivamente O coloca no centro da Páscoa, passagem de Deus pelas nossas vidas. O apóstolo O identificou de forma bem sublinhada: “Cristo, nossa páscoa” (1 Coríntios 5:7)! A igreja pode e deve ser “uma nova massa” (seguindo a figura veterotestamentária da Páscoa) que idealmente já o é pela obra redentora de Cristo, o Cordeiro pascal. O apóstolo empresta uma conotação ética à palavra “fermento”. Convida os coríntios a celebrarem a obra de Cristo como Cordeiro pascal por meio de uma vida despojada do mal. Contrasta “o fermento da maldade e da malícia” com os seus opostos “os asmos da sinceridade e da verdade” – o pão sem fermento, de sinceridade e verdade. Esta é a verdadeira e pura Páscoa.
Notemos as marcas do ritual pedagógico de Jesus e a sua posterior continuidade nas passagens que fazem referência direta à instituição da Sua Ceia: Mateus 26:26-28; Marcos 14:22-24; Lucas 22:19-20 e 1 Coríntios 10:15-17; 11:23-29.
Lição 1: Celebrar a Ceia em família.
Jesus não convoca a sua família
carnal (o que era suposto pelas diretrizes moisaicas) mas a espiritual – os Seus
discípulos mais íntimos, os apóstolos[1].
Lição 2: Tomar a Ceia como memorial.
A partir daquele momento não seria mais evocada a morte do cordeiro como fator de vida para os primogénitos de Israel, mas sim lembrada a morte de Jesus, o Cordeiro de Deus. Os três evangelhos sinóticos descrevem a alusão figurada de Jesus ao Seu corpo e sangue que seriam entregues por nós: “isto é o meu corpo… isto é o meu sangue”; todavia, só Lucas[2] (22:19), tal como Paulo aos Coríntios (1 Coríntios 11:24 e 25) acresce: “Fazei isso em memória de mim”.
Lição 3: Aceitar a (nova) aliança ratificada pela morte de Cristo.
Jesus aproveitou-se do pão e do vinho para em sentido figurado enfatizar a natureza da união que temos com Ele por meio de Seu sacrifício na cruz. Para Franklin Ferreira
“o cumprimento da expiação de Jesus marcou o advento da nova aliança… simbolizado quando o véu do santuário se rasgou (Mateus 27:51), no momento da morte de Jesus, e também na Ceia do Senhor, quando Cristo disse: “… isto é o meu sangue, o sangue do (novo) testamento, que é derramado por muitos, para remissão de pecados” (Mateus 26:28).”[3]
Aqui, a morte de Jesus e a Sua Ceia ficam intrinsecamente ligadas – via ato e símbolo!
Lição 4: Ter a esperança da vinda de Jesus.
Pelo ato da Ceia proclamamos a esperança da vinda de Jesus – “até que venha” (1 Coríntios 11:26b). Os sinóticos revelam esta novidade que Jesus endossa ao cerimonial: “… até àquele Dia em que o beba de novo convosco no Reino de meu Pai.” Advoga ainda Franklin Ferreira que
Os “vários
relatos bíblicos sobre a ceia conduzem-nos a pensar na consumação do reino de Deus (Mt 26.29; Mc 14.25; Lc 22.29).
Na Ceia, o passado, o presente e o futuro se juntam, somos convidados a olhar para o dia em que o reino será plenamente
consumado, por obra do Senhor
encarnado, expiado e triunfante.[4]
Maranata!
[1] Surge a questão: Judas tomou a Ceia ou apenas a Páscoa? Dos evangelhos, João é o único a não nos transmitir a instituição da Ceia pelo Senhor – apenas relata a ceia pascal (capítulo 13). Provavelmente o bocado molhado tomado por Judas (João 13:26) bem como o cálice referido em Lucas 22:17 são pertença da ceia pascal. Não considero esta questão importante para se decidir quanto ao tipo de participante, dando-nos critérios de exclusividade no participar, da Ceia do Senhor!
[2] Outra particularidade de Lucas é a referência a outro cálice (22:17), que não o da nova aliança (v. 20). O evangelista separa textualmente a última festa da Páscoa celebrada por Jesus (vv. 7-18) da Sua primeira Ceia (vv. 19-20). Esta exclusividade lucana abre a porta a considerações históricas e pragmáticas da Páscoa judaica, mais propriamente o uso de vários cálices (ou várias tomas no mesmo cálice!) na sua liturgia, tal como podemos encontrar em “Princípios transferíveis para a Ceia do Senhor”.
[3] Ferreira, 2007, p. 602
[4] Ibid., p. 985