O PARTICIPANTE DA CEIA DO SENHOR

O PARTICIPANTE DA CEIA DO SENHOR

OPINIÕES E DOGMAS SOBRE A CEIA DO SENHOR

         É deveras válida e imprescíndível a compreensão da perspetiva da Igreja nos seus inícios – considerando o seu pano de fundo histórico – para perceber o perfil do participante na Ceia nos dias de hoje. Muitas lições se podem aprender, já que o homem e os seus desafios são muito similares em todo o tempo. Sei que a figura do participante da Ceia – como em muitas outras questões – esteve constantemente sujeita a fatores condicionantes.

O balanço encontrado nas ideias de “só toma a Ceia quem for batizado” até “as crianças podem tomar a Ceia por serem família”, passando por “os não crentes também podem… porque cada um se deve examinar a si próprio… e, mal também não faz…”… exige que se estudem cada uma das “peças do quadro” onde se entrou em dogmatismos.

Tratados, Concílios e muitos, muitos mesmo, diferendos e discussões teológicas foram contribuindo para o surgir de credos, perceções e formatos de fé. Olhemos um pouco de relance para nos situarmos, tirando ilações do empirismo de nossos pais na fé.

         Na sua dinâmica, a Igreja coloca diante de nós o já confrontado e concluído pelos nossos antecessores na fé. Penso que o lidar com esses dogmas deve desenvolver alguma segurança no “caminho já trilhado” por homens e mulheres tementes e fiéis a Deus. Por outro lado, não se pode ofuscar a liberdade e descoberta pessoal – certo é que a maior segurança advém do “que é nosso”, a nossa descoberta, a nossa expectativa. É neste patamar de reflexão consciente e consequente responsabilidade de vida que se geram os conhecedores sinceros dos caminhos de Deus.

         Opino que a verdade de Deus é objetiva (tal como Deus é absoluto), sendo, porém, a sua revelação e descoberta, por vezes, muito pessoal e paulatina.

            O Participante da Igreja Primeva

            Uma visão muito fiel da vida da Igreja em início adquire-se pela leitura da

Didaché, o mais antigo manual das primeiras comunidades cristãs que chegou até nós. O terreno das datas muitas vezes contém um pântano de incertezas e probabilidades. Também com a datação deste manual surgem alguns considerandos. Poucos são, segundo Urbano Zilles, os que defendem a datação da dita obra por volta da metade do século II; geralmente se admite a sua compilação no primeiro século, entre os anos 90 e 100 d.c.[1]

         Esta valiosa informação literária, que retrata bem as posições doutrinárias e o estado da alma eclesiástica, é bastante perentória sobre quem devia tomar a Ceia! Cristina Virott menciona-o: “Mas ninguém coma ou beba da vossa eucaristia, a não ser os batizados em nome do Senhor”.[2] (O pressuposto do batismo nas águas para a tomada da Ceia é determinante para o perfil do cristão assumido!) O autor Michael Dusing faz uso de um comentário do ilustre F. F. Bruce: “A ideia de um cristão não batizado realmente sequer é contemplada no Novo Testamento.”[3]… E não só, também Robert Gundry: “O problema de crentes não-batizados jamais surgiu nas páginas do Novo Testamento.”[4] Um estudo leve do Novo Testamento parece colocar o batismo nas águas muito consequentemente próximo da conversão do indivíduo.[5]

A festa dominical da eucaristia era, a par do batismo nas águas, o grande encontro para adoração e comunhão do coletivo da igreja. As intenções sacras e de compromisso sério colocavam sobre essa eucaristia uma responsabilidade de grande monta que condicionava e em simultâneo responsabilizava os seus candidatos. Como Henry Bettenson lembra:
            ninguém pode participar… a não ser aquele que, crendo que nossas doutrinas são          verdadeiras, tem sido lavado com lavagem para remissão dos pecados e para o novo     nascimento, e que vive segundo os ensinos de Cristo.[6]


[1] Zilles, 1986, p. 17

[2] Virott, 2004, p. 215

[3] Dusing, 1996, p. 569

[4] Gundry, 1981, p. 243

[5] É advogado que o status religioso do judeu comum permitia-lhe rápido compromisso pelo batismo. Ele, que “conhecia tudo”… como que a necessitar apenas de aplicar o seu conhecimento teórico a um estilo de vida com Jesus Cristo. Esta questão merece alguns considerandos e confirmações, abrindo-se também o tema “gentios” – e estes, será que necessitavam de mais tempo para aprenderem o Torá e com verdadeiro conhecimento de causa serem posteriormente batizados?!

[6] Bettenson, 1967, pp. 103, 104

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