O recebido do Senhor por Paulo (v. 23)[1] é o relato da Ceia, tal como Ele instituíra; todo o seu significado (vv.23-26) é bem claro: comer o pão e beber o cálice significa proclamar e aceitar os benefícios da morte sacrificial de Cristo (v. 26).[2] Mas aqui, o apóstolo também vê, segundo alega F. F. Bruce, “uma ocasião de comunhão (gr. koinonia) e em sua interpretação da palavra do pão, “este é o meu corpo”, fazendo-a englobar o corpo coletivo de Cristo.”[3]
A declaração que Paulo faz do cálice e pão como sendo da bênção e comunhão (1 Coríntios 10:16) transporta-nos para o significado primeiro da eucaristia: o corpo e o sangue do Senhor.
No versículo 17, e com muita clareza, Paulo avança para o que essa tomada também implica – “somos um só pão”. Porquê? “porque participamos do mesmo pão. Para George Ladd:
O comer e o
beber envolvem mais do que a memória de um evento passado; pois também representam a participação do corpo
e do sangue de Cristo, e, portanto, a participação em seu corpo… No entendimento de Paulo, a participação na ceia
pressupõe um ambiente fraterno.[4]
O apóstolo necessitava denunciar a indignidade[5] com que tomavam a eucaristia. Traz-lhes à memória o propósito soberano de Deus, pela morte de Cristo, da criação de um corpo espiritual, a Igreja, e repreende-os exatamente pela forma indigna como o maculavam. Não se pode celebrar com verdade a causa do ato quando se transgride o propósito da causa!
É por isso, que a
melhor forma e exemplo-tipo de os consciencializar da solenidade do
reconhecimento dos irmãos como o corpo de Cristo é trazer-lhes à memória o ato
eucarístico revelado pelo Senhor. O v. 27 funciona como uma ponte entre o
exemplo rebuscado na primeira Ceia e a aplicação espiritual a eles imputada na
festa agápica. No v. 28 é requerido um exame – visa especialmente certificar-se
de que ele está vivendo e agindo em amor para com os outros (comunhão) – da
atitude na festa agápica à luz da santa Ceia. Como Wayne Grudem muito bem
explica,
não discernindo o corpo do Senhor” (v. 29) significa que o faz “sem
entender a unidade e a
interdependência das pessoas na igreja, que é o corpo de Cristo… não dar
atenção aos nossos irmãos e irmãs
quando vamos participar da Ceia do Senhor…[6]
[1] “Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei…”. O Comentário Bíblico Mundo Hispano defende que há dois verbos “recebi” e “ensinei” que refletem corretamente o sistema de transmissão das tradições judaicas. Com o uso de ambos, fica percebido que o que foi ensinado era sagrado, provindo de fontes fidedignas. Quando Paulo diz que recebera esta tradição do Senhor, não significa que o Senhor lho tenha relatado diretamente. Pelo contrário, a preposição grega apo não indica que a tradição fora recebida sem intermediário, mas precisamente o oposto. Ou seja, a tradição teve sua origem em Cristo, sendo Paulo parte desta cadeia transmissora. É provável que o apóstolo tenha recebido a tradição dos crentes de Antioquia antes de começar sua viagem missionária. No entanto, o importante é a autoridade do próprio Cristo presente nesta tradição – que se tornou parte das Escrituras. O Comentário Bíblico Mundo Hispano (Bíblia Electrónica e-Sword), Rick Meyers (direitos reservados), 2009 (Comentário 13. La Cena del Señor, 1 Co 11:23-26). Traduzido do espanhol.
[2] “Por isso, a participação na ceia requer, em primeiro lugar, reconhecimento da santidade da ordenança. Em Corinto, muitos se comportavam na ceia como se estivessem numa refeição qualquer. “Discernir o corpo” quer dizer, primeiramente, reconhecer a santidade do que a ceia relembra: “anunciais a morte do Senhor” (1 Co 11.26)… na ceia, a graça invisível significa receber os benefícios do sacrifício de Cristo (1 Co 10.16), alimentar-se espiritualmente de Cristo (1 Co 11.24-27) e ter comunhão com o povo de Deus (1 Co 10.17). (Ferreira, 2007, pp. 954, 982)
[3] Bruce, 2003, p. 276
[4] Ferreira, 1987, p. 953
[5] Nos vv. 27 e 29 encontram-se as consequências do tomar indignamente a Ceia do Senhor: “será culpado do corpo e do sangue do Senhor” e “come e bebe para sua própria condenação”. Que condenação?: “há entre vós muitos fracos e doentes e muitos que dormem.” (v. 30). Quanto à definição de indigno, o v. 29 é perentório: “não discernindo o corpo do Senhor”!
[6] Grudem, 1999, p. 843