CONCLUSÃO
Após citações singulares, significativas e controvérsias de vários autores,[1] a minha pesquisa encaminhou-me a ideias interessantes: ratificadoras, complementares, e ainda outras, desafiadoras.
É indubitável para mim que a tomada digna da Ceia do Senhor é de
responsabilidade pessoal, e que os seus símbolos dirigem-nos à consideração memorial da morte de Cristo mas também à comunhão com os irmãos.
Verifiquei as formas diferentes da Igreja no seu percurso histórico tratar a questão do “tomador digno” da Ceia.
Este ato cerimonial tão fundamental na vida da Igreja ocupa o seu espaço na liturgia da igreja local, devendo coerentemente ser ministrado a pessoas batizadas. Recebi com naturalidade a ideia de “um cristão não batizado” ser sequer aceite na realidade neotestamentária.
No que concerne às crianças, a sua inocência e não perceção do que
causa(ou) tal prática, não as responsabiliza, e tão pouco as compromete a tal toma.
Os não crentes, tal como as crianças, não assumem identificação com Cristo pelo batismo nas águas e consequente identificação com o corpo de Cristo, a Igreja, pela Ceia. Não me parece coerente e teologicamente aceitável a sua participação nesta cerimónia solene e identitária. Essa identificação – com Cristo e os outros crentes – culmina na prática das ordenanças referidas, após aceitação do corpo de doutrinas que identificam e comprometem vivencialmente os submetidos.
O mesmo entendimento espiritual que permite perceber o que o corpo físico de Jesus adquiriu para nós os que cremos na Sua morte, faz tomar simbolicamente o pão físico – o tomar da Sua Santa Ceia – e assumir o alto propósito de continuar a vindicar a unidade do corpo espiritual, a Igreja.
Uma nota que me sensibilizou, mesclada de exagerado zelo, foi a posição
tomada pelo Concílio de Constança de não permitir a doação do cálice pelos sacerdotes aos leigos, sob pretexto de, e passo a transcrever: “deixar cair o sangue de Cristo no assoalho, ou nas barbas dos comungantes”[2]. Este é um exemplo de como é “eterna” a tensão entre o zelo comedido e o fanatismo gerado pela ignorância e insensatez.
Outra
tónica deveras propagada e por muitos defendida ainda hoje é a virtualização do
ato da Ceia. A minha apologia é a da não virtualização dos elementos, mas sim
lembrete do ato expiatório de Jesus.
Avanço com quatro notas
que considero basilares à construção de uma atitude séria no respeitante à
participação na Santa Ceia do Senhor.
[1] Vide Anexo D: “Citações de vários autores”.
[2] Schaff, 1964, p. 314; citação na nota 17