A Ceia do Senhor nas igrejas contemporâneas
Declaração de fé
A Declaração de Fé de qualquer igreja, grupo ou departamento paraeclesiástico serve (pelo menos teoricamente), para apresentar a identidade de suas crenças e filosofia comportamental; algumas até incluem a liturgia do seu culto e reuniões comunitárias.
Muitas vezes este perfil doutrinário está desfasado da realidade das doutrinas aceites e pregadas. Infelizmente, muitos são os casos onde os membros de igrejas locais não conhecem a sua Declaração de Fé.
Ou seja: o que é que define os grupos e os torna homogéneos? A praxis ou a doutrina?… Ou melhor: as declarações de fé incluem o que é (tem de ser!) aceite na fase preliminar de integração de alguém no grupo, conduzindo eficazmente a uma praxis harmoniosa; ou, simplesmente as pessoas se integram num grupo sem conhecerem/entenderem o que as tornas unas – colocando até paradigmaticamente em questão as “suas” doutrinas?
A nível pessoal considero que as congregações devem caprichar por fornecer informação identitária – que passe obrigatoriamente pela doutrina e secundariamente por outros “delimitadores” – aos que a elas se desejem juntar. É preferível que seja óbvio o “ser e estar” numa atmosfera de compromisso sadio, que deixar andar num “campo sem balizas”; vale mais esforçar-se por manter a unidade que ficar só e à mercê do suicídio espiritual. Se não, prejuízos poderão advir mais à frente, tanto para o novo membro como para a congregação recetora.
Percebo o quão tentador é receber e integrar qualquer pessoa, e até irmão, sem se explicar o necessário para a permanência naquela congregação; só que a dimensão da “abertura” para a entrada permite em si, potencialmente, a dimensão da facilidade à deserção. Percebo também que cada congregação deva ter porta aberta para qualquer pessoa! (Sonho com maior cordialidade e ética ministério-pastoral para uma maior identidade e respeito mútuo das congregações congéneres no que concerne à movimentação dos seus membros.)
Recolhi algumas Declarações de Fé e Credos de diversas igrejas e organismos de vários quadrantes evangélicos e de identidade reconhecida na realidade portuguesa, quer pela pesquisa em livros, quer em sítios da internet.[1] Olhando um pouco superficialmente podemos encontrar algumas definições no que dita à Ceia do Senhor. Usando apenas estes sete exemplos também é notória a existência de algumas nuances. Vejamos:
1. Ordenança instituída pelo Senhor.
2. Requer exame pessoal.
3. Participação exclusiva dos crentes batizados e em comunhão.
4. Partilha dos símbolos do corpo e do sangue de Jesus até à Sua vinda.
5. Ato de obediência e testemunho das verdades da fé cristã.
Ao longo dos séculos têm coexistido na experiência das igrejas evangélicas três perspetivas principais no tocante à participação da Ceia do Senhor. O escritor Ebenézer Ferreira apresenta-as e define-as como sendo:
1. Ceia livre – dada a “membros de
qualquer seita” e em qualquer lugar, não se cingindo
ao espaço do templo;
2. Ceia restrita – “dada aos membros da Denominação Batista da mesma ordem e fé…e, por uma questão de cortesia, a algum crente visitante que pertença a uma igreja batista da mesma fé e ordem”;
3. Ceia ultra-restrita – só dela
participam os membros da igreja.[2]
É certo que esta perspetiva se encontra direcionada a uma denominação evangélica em particular (Denominação Baptista). Outra abordagem poderá ser feita, tal como Russell Champlin faz em forma de pergunta: “A Ceia do Senhor deve ser “aberta” ou “fechada”? E avança na sua apologia:
… essa cerimônia deve admitir todos os crentes professos, ou se limita apenas aos
membros de uma assembléia local?… na igreja primeva… não é provável que crentes
visitantes, vindos de outras igrejas locais, fossem proibidos de participar da Ceia
celebrada em outra congregação local. Outrossim, a Ceia do Senhor é chamada “a mesa
do Senhor”, e não a “mesa da igreja local”. Assim também, os crentes são ensinados a se
“examinarem a si mesmos” e não a serem “examinados pela igreja local” a fim de estarem
qualificados a participar da mesma… Em Corinto esse rito vinha sendo usado para
destacar os partidos facciosos, quando certos membros da igreja eram menosprezados…
isto é, servia de meio de discriminação. E a chamada “comunhão fechada” não é uma
modificação desse abuso? Pois somente o Senhor sabe quem realmente lhe pertence.
Precisamos depender da
“profissão” feita pelos próprios participantes, que assim expressam o seu
desejo de participar da Ceia. E isso mostra que essas pessoas não consideram o
Senhor como nada, mas antes, como seu “Senhor”, embora não se possa determinar
em que sentido exato. Não cabe a nenhum homem “examinar” a outrem quanto a essa
questão.[3]
Assim, para ele a Ceia deve ser “aberta” no sentido em que cada
participante se deve examinar a si mesmo.
[1] Vide Anexo B: “Credos e Declarações de Fé de Igrejas e Organismos Evangélicos em Portugal”.
[2] Ferreira, 1987, pp. 137, 141
[3] Champlin, s/d, p. 177