Uma constatação hodierna parece ser a de que os critérios de tomada ou não da Ceia passaram um pouco mais para o “autojulgamento do tomador”, não o sendo tanto a igreja pelas suas delimitadoras regras. Em nome de (e podendo parecer mais um alerta do tipo “Não te metas na vida dos outros!” que “Tem cuidado, vigia, fá-lo em consciência!”) “Examine-se… o homem a si mesmo” (1 Coríntios 11:28) não poderá a liderança correr o risco de estar a assumir certa passividade?… Sentir-se-á cada um (ligado ao)/corpo? Pergunto eu: Se a responsabilidade pelo coletivo for minizada na eucaristia, como valorizá-la nas relações cuja unidade a eucaristia representa?
Numa analogia com a circuncisão – como pré-requisito para se tomar a Páscoa – Richard Bacon coloca o batismo como pré-requisito para se tomar a Ceia do Senhor.[1]
Receio a linearidade nesta condição ou pré-requisito, visto o enquadramento da prática da circuncisão não ter obrigatoriamente de permitir-se à aplicação dos seus pormenores a outra prática, distante, o batismo nas águas. A forma de perceber o que pode ser transportado é pelo estudo de cada citação àquela, percebendo o(s) detalhe(s) referido(s) e devidamente assumidos e identificados com este.
Outro preliminar a ser considerado era o “lugar” das crianças: tomavam ou não a Ceia do Senhor?[2] Argumentos houve que favoreciam o sim, enquanto outros o não.
Posições díspares são assumidas. E.g., Cipriano testemunha, conforme relata Williston Walker, da prática da comunhão de crianças a partir da ideia da Ceia do Senhor como fonte de vida.[3] Ainda a favor está o memorial da Páscoa, lembra Rich Bingham,
como refeição familiar, onde, obviamente, independentemente da idade todos os membros faziam parte. E mais! Toda a cerimónia estava dirigida às crianças, funcionando como lembrete do livramento das crianças aquando a saída do Egito. [4]
Estes
argumentos são de grande monta, sendo facilmente aceitável a ideia de
familiaridade da Páscoa e do ritual que envolvia tanto as crianças como os
demais elementos da casa. No entanto, e repetindo o mesmo argumento atrás
apresentado – receio a linearidade, as inferências precipitadas-, fazer uma
associação óbvia da Páscoa com a Ceia do Senhor, em todos os pormenores, não é
uma opção hermeneuticamente séria. No que toca à perspetiva cipriana da Ceia
como fonte de vida, abre-se a discussão da virtualização dos elementos/ato que,
em termos gerais, não considero plausível.
De lado oposto está o argumento
da exigência da participação na Ceia ser feita em memória de Jesus; as crianças
não têm a perceção, um suficiente conhecimento d´Ele para participarem. Aqui já
temos um novo elemento, um complemento neotestamentário – a ênfase na
responsabilidade do tomador. (Lembrar que a abordagem de Paulo no regrar da
Ceia em Corinto tinha uma toada de compromisso e, até, de possível e
consequente culpa!)
[1] Bacon (http://www.monergismo.com/textos/santa_ceia/mulheres_ceia_bacon.htm – A Participação Feminina na Ceia do Senhor).
[2] Questão novamente abordada em “Princípios transferíveis para a Ceia do Senhor”.
[3] Walker, 1967, p. 135
[4] Bingham (http://www.monergismo.com/textos/santa_ceia/criancas_mesa.htm – Crianças na Mesa do Senhor).