Posições ao longo da História
Basta um olhar pelas igrejas que assumidamente ganharam pujança internacional, e que se afirmaram pelos muitos fiéis que conquistaram, para notar como é possível dogmatizar e fazer permanecer por muito tempo as doutrinas. É certo que foram surgindo mudanças, mas era difícil provocar e fazer aceitar alterações… era muito difícil “mover a pesada máquina!” Vejamos em traços largos:
eucaristia o pão e o vinho mantêm a aparência, contudo a substância se modifica, passando a ser o corpo e o sangue de Cristo.
2. O Protestantismo, cuja teologia remonta aos princípios da reforma sob a influência de Lutero e Calvino, vê a eucaristia como um sacramento – aceitando a virtualização pelo ato eucarístico.
3. Os evangélicos, mais adeptos de Zwinglio, designam a eucaristia
geralmente por “Santa Ceia” ou “Ceia do Senhor”. A ceia não contém nem transmite virtude alguma, sendo apenas um símbolo e servindo de lembrança (“ceia memorial”) ao participante.
Wayne House referencia posições distintas acerca da Ceia do Senhor, cujo desenvolvimento se deu ao longo da história da igreja[1] – a Ceia do Senhor entendida como transubstanciação, consubstanciação, reformada e memorial.
Posições polares e muito definidas sobre transubstanciação e consubstanciação foram protagonizadas por conceituadíssimos “pais da doutrina”. O escritor Armando Silvestre informa que:
1. Lutero e Melâncton combateram a doutrina da transubstanciação, adoptando a então conhecida interpretação consubstanciação – apologista da presença de Cristo na substância do pão.
2. Zwinglio, Ecolampádio e Bucer enfatizaram que a eucaristia era apenas, e tão só, um memorial, um sinal da presença de Cristo. (Estes diferendos colocaram-nos sem acordo no tocante à eucaristia!)
3. Calvino, como Lutero, insistiu na presença de Cristo na eucaristia.[2]
Nesta temática existia rigor mas também a abertura, que porventura desviaria os fiéis das normas sacras e solenes da eucaristia. O autor Henry Bettenson, referindo-se ao culto cristão do segundo século, faz a apologia de que
só participava da Ceia quem aceitasse as doutrinas bíblicas e fosse batizado nas águas, a
quem perentoriamente chama de fiéis. Como segue: “Depois de termos lavado desta
maneira (batizado) aquele que se converteu e deu o consentimento seu… os chamados
“diáconos” distribuem entre os
presentes o pão eucarístico e o vinho com água… embora só pelos fiéis seja recebida…”[3]
Contudo, nomes sonantes iam um pouco mais longe advogando que o cerimonial da Ceia deveria ser exclusivo da classe sacerdotal. O Concílio de Constança, em 1414, chegou a ameaçar, conforme confere David Schaff,
de excomunhão os sacerdotes que
doassem o cálice aos leigos, sob pretexto de serem evitados sacrilégios, referindo até o
risco “de deixar cair o sangue de Cristo no assoalho, ou nas
barbas dos comungantes…”[4],
proibição que a Igreja Católica Romana ainda hoje mantém.
Os requisitos não se confinavam ao batismo nas águas como condição à tomada da Ceia, mas também a quem deveria ser ou não batizado nas águas. As crianças são fator importante nesta temática, sabendo que dentre os pais da Igreja contamos com opiniões díspares, e opostas até. Michael Dusing cita os pais Orígenes e Tertuliano como personificando papéis contrários: Orígenes, favorável… Tertuliano contra o batismo das ditas crianças. (É óbvio, que assim sendo, as mesmas ficariam automaticamente excluídas da observância da respetiva eucaristia!) Refere Dusing que no século III
Orígenes asseverava que a Igreja recebera a tradição que ordenava o batismo até das
crianças, enquanto que, por outro lado, Tertuliano opinava o contrário, alegando: “Por que
a idade da inocência se apressa para obter a remissão dos pecados?… Deixe… que
venham depois de mais crescidos…
deixe-os tornar-se cristãos quando tiverem a
capacidade de conhecer a Cristo”.[5]
[1] House, 2000 – quadro 80
[2] Silvestre, 2009, pp. 100, 102
[3] Bettenson, 1967, pp. 103, 104, 265
[4] Schaff, 1964, p. 314
[5] Dusing,1996, pp. 571, 572