O PARTICIPANTE DA CEIA DO SENHOR

O PARTICIPANTE DA CEIA DO SENHOR

No tempo de Jesus a litur­gia seguia esta ordem: Na mesa eram colo­ca­dos pre­vi­a­mente todos os ele­men­tos necessários à cel­e­bração. Em seguida, todos os mem­bros da família se sen­tavam recli­na­dos à mesa para cel­e­brar a Pás­coa. Depois, enchiam-se os copos com dois terços de água e um de vinho sem lhes tocarem. Cada mem­bro da família tinha dire­ito a qua­tro copos de vinho mis­tu­rado com água. Então, o chefe de família dava graças con­forme iam comendo e bebendo (cujo fun­da­mento teológico se encon­tra em Êxodo 6:6 e 7).

         O primeiro copo era chamado o cálice da san­ti­dade (reconhecimento do Senhor em família). A oração de aber­tura era de ação de graças pelo dia fes­tivo da lib­er­tação. Tomando um copo nas suas mãos, o chefe de família elevava-o dizendo: “Abençoado sejas Tu, Sen­hor nosso Deus, Rei do Universo, Cri­ador do fruto da vide”. Lavavam as mãos e comiam ervas amar­gas recor­dando os tem­pos amar­gos no Egito. Leiamos: “Eu sou o SENHOR… E eu vos tomarei por meu povo, e serei vosso Deus” (Êxodo 6:6 e 7) e “Examine-se… o homem a si mesmo… come e bebe indignamente… não discernindo o corpo do Senhor” (1 Coríntios 11:28 e 29)

O segundo copo era chamado o cálice da instrução (relativo à santidade, redenção e esperança). Nesta ocasião era feita a nar­ra­tiva anual aos fil­hos sobre os acon­tec­i­men­tos que lib­er­taram o povo do Egito pela mão de Moisés, con­forme orde­nado em Êxodo 12:26 e 27. Aí can­tavam o pequeno Hal­lel, que é o Salmo 113. Leia-se: “e sabereis que eu sou o Senhor, vosso Deus” (Êxodo 6:7) – santidade; “que vos tirei de debaixo das cargas dos egípcios” (Êxodo 6:7) – redenção; “vos levarei à terra acerca da qual…” (Êxodo 6:8) – esperança e “fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:24b).

O ter­ceiro copo era chamado o cálice da redenção. Neste momento da ceia o

chefe tomava o pão nas mãos e dava graças dizendo: “Abençoado sejas Tu, Sen­hor nosso Deus, Rei do Univereso, que extrais o pão da terra”. Então, par­tiam com as mãos um pequeno pedaço de pão e comiam os ele­men­tos da ceia. Veja… “vos tirarei… vos livrarei… vos resgatarei” (Êxodo 6:6) e “isto é o meu corpo que é partido por vós… Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue” (1 Coríntios 11: 24 e 25).

O quarto copo era chamado o cálice da esper­ança (esperança da vinda do Messias). Era o copo final, o cálice da ale­gria, tomado no final da refeição. Foi este que Jesus disse que não bebe­ria até que venha o Reino de Deus e possa bebê-lo com a sua noiva. Ou, doutra maneira: “… até àquele Dia em que o beba de novo convosco no Reino de meu Pai.”. No final can­tavam o grande Hal­lel, os Salmos 114 a 118. A refeição ter­mi­nava com ação de graças por um deles e o amém por todos. Note os textos: “vos tomarei” (Êxodo 6:7) e “até que venha” (1 Coríntios 1:26b.

O Senhor aproveitou-Se da tónica da recordação do cordeiro pascal no Egito para estabelecer a Sua Ceia como ordenança e memorial. (Muitos têm ido além desta expressiva e solene festa de reconhecimento, tendendo a ver os sacramentos como rituais que transmitem graça espiritual aos seus participantes.)

         Outra opinião que se coloca entre a tomada inconsciente, banal da Ceia e a sacralização dos seu elementos é a visão da mesma, afirma David Clark, ser “um emblema ou sinal da profissão… e renovação dos votos do concerto feito com Cristo.”[1] Funciona como um sinal visível do pacto existente entre nós e Cristo.             Neste momento já podemos aglutinar a ideia de ritual da Páscoa, adotado pelo Senhor ao cerimonial da (primeira) Ceia com a funcionalidade da eucaristia como sinal de um relacionamento com Ele. É bom de ver que o próprio Cristo coloca-Se a Si mesmo na transferência do modelo – Páscoa para Ceia – através dos símbolos pão e vinho. A partir daí não se comemora a morte de um animal, mas celebra-Se a Sua entrega, a da sua própria Pessoa – O Cordeiro de Deus.


[1] Clark, p. 338

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