Só quando vamos participar? Diria que o discernimento a ter e o exame a ser feito devem ser realizados sempre!
É de suma importância, no v. 27, o significado do termo “indignamente”
(gr. anaxios). O tom doutrinário não se cinge à qualidade de sermos “indignos”, mas ao modo de tomarmos “indignamente”. A jeito de explicação J. Darby alega que
Não se trata de inquirir se somos
dignos de participar na Santa Ceia; o que é censurado aqui é que participemos
nela de maneira indigna. Todo o Cristão – a não ser que um pecado o exclua – é
digno de participar na Santa Ceia, porque é Cristão; mas pode suceder a qualquer
Cristão aproximar-se da Mesa do Senhor sem se ter julgado ou sem apreciar, como
deve, o que a Santa Ceia lhe recorda e o que Cristo relacionou com esta
instituição.[1]
… e Raphael Martins afirma
que o texto não diz indignos. Pois, todos nós somos indignos da comunhão da cruz… que foi curada mediante a fé no sacrifício da cruz… indignamente… se refere hermeneuticamente ao modo de celebrar a ordenança da Ceia e não às qualidades dos membros da Igreja celebrante.[2]
Há necessidade de cada crente
fazer um exame de conduta e motivos espirituais, considerando a sua atitude
para com o Senhor e os outros crentes.
A falta de “discernimento” do corpo do Senhor (vv. 27-29) teria como resultante a disciplina do próprio Senhor. Tais infratores, sublinha a Enciclopédia Temática da Bíblia: 1 – São culpados do corpo e sangue de Cristo (1 Coríntios 11:27); 2 – Não discernem o corpo de Cristo (1 Coríntios 11:29); 3 – São visitados com julgamento (1 Coríntios 11:30).[3] Julgamento esse que os tornara “fracos, doentes e… que dormem” (v. 30). Para Russell Champlin estes termos aludem à debilidade física, às enfermidades e à morte física, e não a castigos do âmbito moral ou espiritual.[4]
As ocorrências da palavra-raíz que designa “juízo” (gr. krino) indicam que o Senhor executa julgamento sobre a tomada indigna dos elementos que simbolizam o corpo sofrido e morto de Jesus, atentatória ao propósito sublime de tal morte (vv.29-32)! É notável a toada sagrada com que Paulo aborda semelhante ato, colocando o “peso” da responsabilidade sobre os coríntios profanadores!
O autor Michael Dusing, valorizando a Ceia, chega a opinar ser preferível participar indignamente que não participar, alegando até, que não tomar é negar o valor do sangue de Cristo e não querer ver nos outros o corpo de Cristo.[5] Tomar, sim, mas dignamente!
A pertinência do texto foca a tomada, não abrindo a possibilidade de não se tomar a Ceia. (Não participar não é alternativa para Paulo!)
O termo “culpado” (gr. enochos)tem uma aplicação jurídica (v. 27). Culpados de quê? “culpados” de derramar o sangue de Cristo, como sendo nós os executores, os assassinos! Não tomar dignamente a Ceia torna o seu tomador culpado “legal” da crucificação de Jesus. O Senhor executará condenação, correção, juízo (v. 30).
O auto-julgamento[6] de cada crente deve ser feito a fim de evitar ser repreendido pelo Senhor” (vide v. 32)! O fato dos coríntios serem disciplinados, (também) era a expressão da misericórdia divina; pois existe diferença entre castigo dos crentes e condenação dos não crentes (vv. 31 e 32).
Donaldo Turner é muito claro quanto ao alvo deste juízo,
alegando que é para evitar que continuemos no pecado até
que não haja diferença entre nós e
os infiéis, de maneira que seríamos condenados com o mundo se não fôra a intervenção divina,
ainda que seja sob a forma de castigo.[7]
A severidade da
disciplina leva à morte (“muitos que dormem”), di-lo Roy Zuck, mas a
consequência última é a salvação, não a condenação.[8]
[1] Darby, 1987, p. 251
[2] Martins, 1962, p. 140
[3] Enciclopédia temática da Bíblia, 2008, p. 76
[4] Champlin, s/d, p. 185
[5] Dusing, 1996, p. 762; vide nota 27
[6] 3 etapas de juízo (julgamento): auto-juízo (o crente julga-se e a igreja é conservada); juízo da igreja (se o crente não se julga, o mal infetará a igreja, necessitando esta de agir) e juízo divino (se a igreja não julga o mal, este infetará a congregação; então, Deus trata com a igreja). Os coríntios encontravam-se em perigo: “vos ajuntais… para pior” (11:17). Vide v. 30 (“há entre vós”) e 5:1 (“há entre vós”).
[7] Turner, p. 50
[8] Zuck, 2008, p. 314