Atitudes no culto público (2 a 16)
Como introdução à questão do comportamento digno e correto dos crentes na Ceia, o apóstolo Paulo, já aqui denuncia a verdadeira razão que transtornava a sobriedade e atitude sacra do tomador da Ceia do Senhor. Apresenta a atitude e o comportamento das mulheres como sendo incorreto.[1] Por isso, o grande lema do texto não é exatamente a medida ou o não corte dos cabelos por parte das mulheres mas a atitude santa que se pressupõe a estas para o culto público, que, neste caso implicava uma medida social como testemunho da santidade da mulher. Com certeza que não é uma atitude machista redutora; Paulo apenas trata do que nessa igreja e nesse momento importunava a adoração coletiva genuína.
Paulo apela à submissão da esposa ao marido como repto exemplar e digno da adoração a Deus. Paulo vê na relação da mulher com o seu marido[2] uma cópia da relação da Igreja (digamos figuradamente, a esposa) com Cristo (como sendo o esposo).
Os crentes deveriam interrelacionar-se num espírito de “submissão” e amor (vv. 17-34), bem como as mulheres com os seus maridos (vv. 2-16), tendo-o como condicionante à adoração que agrada a Deus. Só assim, as mulheres poderiam adorar dignamente e os crentes, homens e mulheres, tomar dignamente a Ceia do Senhor!
Comportamentos na Ceia (17 a 34)
O início e o final deste parágrafo textual denunciam
fortemente o estado dos coríntios: “Nisto (Nisso)… não vos louvo” (vv. 17 e
22). A situação relacional, e obviamente espiritual, era precária. É verdade
que no tocante aos “preceitos” (v. 2), às ordenanças ou instruções no tocante à
doutrina, aos padrões morais e às normas de conduta, que entregara às igrejas
pela autoridade de Cristo, Paulo elogia-os: “louvo-vos” (v. 2).
Mas agora denuncia a situação calamitosa de divisão bem patente entre
eles. A preferência pelas personalidades dos servos de Deus, como Paulo, Apolo
e Pedro, a pseudo-espiritualidade “eu, de Cristo” (1:12), e a acentuada
discriminação ricos/pobres (v. 21)[3]
faziam com que voltassem piores para suas casas (v. 17).
[1] Donaldo Turner coloca um ponto de ordem histórico, nesta correcção de falta de ordem nos cultos, particularmente sobre a mulher no culto público: “Nos primeiros anos do Cristianismo, os crentes observavam os mesmos costumes dos judeus nas sinagogas, de que as mulheres se assentassem à parte, em lugar que os homens não as conseguissem ver. Também devemos lembrar que o véu que as mulheres usavam no Oriente era um sinal para todos de que a mulher tinha espôso, pai ou algum parente que era responsável por ela.” (Turner, p. 49)
[2] Para tratamento do tema geral da submissão ter-se-á de entender o peso sócio-cultural de então sob consideração de terminologias a si adjacentes, que abarcam as ideias de subordinação, liderança, dignidade, autoridade e interdependência. O estudo dos termos numa estrutura temporal devia conduzir-nos finalmente ao encaixe desses conceitos na perspetiva da ordenança como solene e cooperativa na igreja de Corinto.
[3] “… a ceia do Senhor era celebrada junto com uma refeição completa, e as pessoas mais ricas levavam suas provisões, ao passo que “os que nada têm” – os pobres – saíam das reuniões famintos e humilhados (11.21,22). Os membros abastados da igreja de Corinto provavelmente patrocinavam as reuniões de adoração corporativa e ofereciam a refeição aos participantes; apenas eles possuíam casas grandes o suficiente para acomodar numerosos grupos de crentes, e apenas eles teriam os meios para prover pão e vinho para a celebração da ceia do Senhor… Eles podem comer e beber em suas casas, mas a adoração corporativa da igreja não é oportunidade para humilhar os pobres (11.22,34). Fazer isso, ele diz, é “desprezar a igreja de Deus” (11.22)… A ceia do Senhor preconiza a unidade dos crentes que se reúnem em torno da morte sacrificial de Jesus. Usar esse sacramento como ocasião para destacar a superioridade social de alguém sobre outras pessoas é totalmente incoerente com essa questão.” (Thielman, 2007, pp. 341, 342)