O Batismo nas águas
Mandamento e simbolismo
Ao longo dos séculos o batismo nas águas tem sido observado como mandamento divino carregado de simbolismo inteiramente participado por pessoas conscientes e comprometidas com a causa de Cristo. Para Ebenézer Ferreira, o batismo e a Ceia não são sacramentos, mas sim ordenanças.[1] Importa obedecer! Mas quem o deve fazer?… Quem deve ser batizado?
Da mesma forma que na Ceia, é de considerar a participação ou não das crianças no batismo. Também aqui há fatores a favor e a desfavor”! Os pais da Igreja neste ponto discordaram abertamente. Por exemplo, conforme refere Michael Dusing,
no século III Orígenes asseverou que a Igreja recebeu a tradição que ordenava batizar até as criancinhas. Já Tertuliano argumentava contra: “Por que a idade da inocência se apressa para obter a remissão dos pecados?… Deixe… que venham depois de mais crescidos… deixe-os tornar-se cristãos quando tiverem a capacidade de conhecer a Cristo”.[2]
De notar o quão importante era para Tertuliano a capacidade de conhecimento da pessoa
de Cristo para assumir o batismo como sinal da remissão dos pecados. O Novo
Testamento, iniciando, mas não se acomodando com a mensagem apeladora de João
Baptista ao arrependimento, avança quanto à condição para o dito batismo: crer
em Jesus.
Relação com a Ceia do Senhor
Numa relação de valor entre o batismo nas águas e a Ceia, Wayne Grudem considera esta um símbolo da permanência na vida cristã, enquanto aquele um símbolo do seu início.[3] É interessante como o autor Ebenézer Ferreira apelida este início da vida cristã de “inauguração pública”.[4] O batismo não é apenas para ser realizado na e pela igreja, mas é em simultâneo um testemunho para o mundo.
Ainda hoje o termo batismo é usado secularmente para o início de uma atividade ou desporto, onde haja a necessidade de afirmação perentória do interessado para com “o clube e os do clube”, controlada e confirmada formalmente por quem de direito o deve ratificar. Assim, temos o batismo de voo, o batismo de mergulho, o batismo asa delta, o batismo de balão, o batismo de kitesurf etc.
Interpretando 1 Coríntios 11:26 (“… todas as vezes que comerdes este pão e
beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor…”) – contextualizado nos vv. 17-34, na temática da Ceia do Senhor – Lucien Cerfaux defende que o apóstolo Paulo “nos obriga a pensar num anúncio dramatizado da mensagem da morte, análogo ao que descobrimos no batismo.”[5] Considero este argumento abonatório de um vínculo óbvio entre as duas ordenanças: a morte que reconhecemos no batismo – a do Senhor – e validamos pela fé e para benefício pessoal, é reconhecida e celebrada no conjunto abençoado dos que tomam a Ceia.
O batismo representa o início de uma aliança com Cristo. O que David
Clark enfatiza na participação da Ceia é a implicação na renovação de votos de aliança com Cristo e a transmissão de benefícios ao tomador.[6] Sim, sempre há benefícios quando obedecemos; contudo, assumir que tomar a Ceia implica diretamente benefícios, roça a virtualização – que já anteriormente demonstrei não perspetivar pessoalmente na eucaristia, nem tão pouco no batismo.
Entendo que o enfoque da Ceia não são os benefícios (ou malefícios) outorgados ao participante, mas o reconhecimento da obra expiatória de Cristo e o assumir a comunhão do corpo, a comunhão no corpo.
A forma categórica da perceção dos simbolismos do batismo e da Ceia e consequente identificação com o corpo de Cristo, os outros crentes, é praticamente óbvia a qualquer leitor e estudioso sério das Escrituras. Não tão comum é a compreensão da responsabilidade de partilha que a tomada da Ceia endossa aos seus participantes, a que o teólogo F. F. Bruce
soma o compromisso a ter com os demais crentes. Considera
que a participação eucarística em
Cristo, como a incorporação batismal em Cristo, não é algo solitário; ambos envolvem compartilhar a vida comum no corpo de Cristo
com todos os outros crentes, e arcar, junto com
eles, com os sérios corolários éticos que os cristãos ignoram por própria conta e risco.[7]
[1] Ferreira, 1987, p. 28
[2] Dusing, 1996, pp. 571, 572; citação na nota 18
[3] Grudem, 1999, p. 842; citação na nota 25
[4] Ferreira, 1987, p. 28
[5] Cerfaux, 2003, p. 346
[6] Clark, p. 338
[7] Bruce, 2003, p. 277