O PARTICIPANTE DA CEIA DO SENHOR

O PARTICIPANTE DA CEIA DO SENHOR

INTRODUÇÃO

         Uma das áreas onde julgo haver hoje necessidade de definição de ordem teológico-prática é a Ceia do Senhor. É bom lembrar que a mesma é uma das ordenanças do Senhor Jesus Cristo e que, a par do batismo nas águas, tem-se perpetuado e observado no seio do cristianismo pelos séculos fora.

Na realidade de algumas igrejas se tem franqueado a tomada da Ceia do Senhor. Por razões várias, crianças, jovens e adultos não batizados nas águas e crentes em desavença se têm chegado à mesa do Senhor.

A importância da prática da Ceia do Senhor exige de nós em particular, e da igreja como um todo, uma reflexão sóbria para uma regulamentação sadia nas igrejas locais. Muito da identidade e performance das igrejas se prende com o modus desta celebração, que transporta em si, e a torna “cúmplice” de valores e dogmas/paradigmas do viver assumido de uma igreja bíblica. Explico: já em si como ordenança tem um valor extraordinário no seu significado, tornando-se desafiadora da obediência reverente dos crentes. Mas creio mais! Creio que o que se crê e defende sobre ela, revela muito do que se crê e defende sobre doutrinas e comportamentos do crente em geral.

         O leigo, nesta como em outras questões, pratica a liturgia imposta pelas lideranças devendo, contudo, fazê-lo com uma límpida consciência! Afinal, quem deve participar – dignamente – da Ceia do Senhor?! Será que o consentimento e a permissividade dos líderes é suficiente para uma tranquila tomada da Ceia ou o leigo muito, mas muito responsavelmente terá que saber fazê-lo para bênção sua e do corpo de Cristo? O papel consagrado do líder encontra-se num equilíbrio que gera uma ação saudável de seus membros: que agem dentro de direções apontadas por aquele. (Só assim se entende o desempenho responsável do líder e o perfil comprometido do liderado.) É neste encontro de vontades e responsabilidade que o líder e os membros contribuem para a formação duma consciência sã e espiritual da igreja como um todo.

A minha inquietação impele-me para uma contribuição positiva e bíblica do assunto. Na esfera da minha participação ministerial – no ensino e também na pregação – quero prestar esclarecimentos escriturísticos que induzam à tomada sóbria e consciente da Ceia. E não só! Pretendo, também, relembrar e motivar ao cumprimento do propósito deste mandamento: reconhecimento do sacrifício expiatório de Cristo pelo corpo universal, a Igreja, e a expressão de amor dos irmãos uns pelos outros.

O problema que me proponho investigar e para o qual procurar soluções é de âmbito muito abrangente e rodeado de muitas e pertinentes questões. Necessita ser visto sobre vários espetros: desde onde, com que frequência, quem e com que propósito tomar a Ceia do Senhor, como e que elementos usar na mesma.[1]

O meu estudo obrigatoriamente terá de assentar nas generalidades da Ceia do Senhor e depois, por a sua vastidão não permitir um tratamento exaustivo de cada uma das sugestões de pesquisa, terá de ser dirigido e acondicionado à questão “quem deve participar na Ceia do Senhor”. Ou seja, o tema diretor que definirá o trilho da pesquisa resume-se em: “O participante da Ceia do Senhor”. O filão de pesquisa será delimitado, requerendo a procura de respostas a perguntas objetivas.

As diretrizes do foro bíblico para a tomada da Ceia do Senhor virão essencialmente de 1 Coríntios 11:2-34; texto este, importante, que exigirá um comentário aclareador do tema. Convém frisar que é o normalmente usado como guia na leitura introdutória à eucaristia (termo grego usado pelos escritores bíblicos para dizer “ações de graças”, dando o nome ao culto da Ceia do Senhor), endossando a referência paulina à ordenança por Jesus estipulada, conforme rezam os evangelhos sinóticos.

Procurarei respostas para áreas pertinentes à temática, como sejam:

1. Ao longo da história da igreja a quem era permitido tomar a Ceia do Senhor?

2. Deverá ser ministrada a Ceia do Senhor a pessoas não batizadas? E a crianças? E a não crentes?

3. Haverá luz bíblica sobre quem deve participar na Ceia do Senhor ou as igrejas locais poderão estabelecer os seus próprios critérios?

Parto para esta pesquisa com conceitos, ou melhor, preconceitos que ao longo de anos se têm edificado pela experiência de igreja e solidificado pelo ensino e pregação. Como perspetiva pessoal aceito que “a Ceia do Senhor deva ser tomada por pessoas batizadas nas águas, cujo testemunho seja ratificado pelo corpo de Cristo – a Igreja”[2]. Procurarei prová-lo!

A Ceia surge, tal como categoriza Constantino Ferreira,[3] depois do batismo. Não creio, contudo, que a Bíblia dite tal objetivamente – esta crença é adquirida por uma construção de comportamentos e princípios coerentes pelo ensino de Jesus e adocicados pela praxis de Seus seguidores.

Esta pesquisa desenvolver-se-á a partir de uma reflexão histórica e análise bíblico-teológica da temática da Ceia do Senhor, sendo que a sua eficácia muito dependerá da estrutura e ordem das ideias e sugestões a considerar. É impreterível uma metodologia orientadora, que contará com questões a pesquisar e a colocação da hipótese: “a Ceia do Senhor deve ser tomada por pessoas batizadas nas águas cujo testemunho seja ratificado pelo corpo de Cristo – a Igreja”, já referidas atrás.

Será de grande valia perceber o desenvolvimento do pensamento histórico, desde a Igreja Primeva até aos nossos dias, passando pelas opiniões e dogmas de alguns dos pais da Igreja. A ter também em conta que o pensamento cristão e a teologia da igreja sofreram desenvolvimentos com as ratificações e os confrontos que a história bem declara.

Por fim, considerarei lições a extrair da experiência sinótica e, impreterivelmente, farei um comentário ao excelente e incontornável texto de

1 Coríntios 11:2-34.

Para fluência na leitura e melhor compreensão das ideias o uso de termos técnicos e conceitos para uso ordinário serão definidos.

1. A referência à Ceia do Senhor passará pelos termos partir do pão e eucaristia.

2. Os termos chave Ceia do Senhor e batismo nas águas, serão expressos, por vezes, apenas por Ceia e batismo, respetivamente.                         3. A utilização das palavras membro, membrasia e correlatos indica uma conexão do crente à igreja local.

Os textos e citações bíblicos advirão da Bíblia de Estudo Pentecostal, tradução de João Ferreira de Almeida e versão Revista e Corrigida, edição de 1995.


[1] Poderíamos acrescentar alguns mais, consultando Charles Hodge, que no Índice Analítico da sua obra apresenta vários itens que usou no tratamento do tema (pp. 1473-1528). Ou seja: instituição divina de obrigação permanente/exigências de coisas que devem ser feitas ou atos sacramentais/qualificação para sua receção/mastigação/eficácia deste sacramento/pontos de vista dos teólogos alemães modernos/o benefício, segundo o ensino luterano, que se recebe na Ceia do Senhor/o cálice é subtraído ao leigo/a Eucaristia como um sacrifício. (Hodge, 2001, p. 1672)

[2] Creio ser saudável apresentar a questão pela positiva: a Ceia do Senhor deve… Por vezes, as afirmações e as questões são colocadas na negativa; e.g., não pode, porque não? etc.. o que, julgo, predispõe quase que intuitivamente a uma rigidez de raciocínio não condizente com um espírito aberto e questionador.

[3] 1) A Bíblia apresenta uma ordem das ordenanças revelada por Deus: a) O arrependimento foi a primeira ordenança instituída por Cristo; b) O batismo foi a segunda ordenança instituída por Cristo no início do seu ministério; c) A Santa Ceia foi a terceira ordenança instituída por Cristo no final do seu ministério. 2) A História confirma esta prática na Igreja primitiva. 3) A Teologia bíblica confirma que esta ordem está certa. Vide Anexo A: “Os Sacramentos”.

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