Ambos recebem a promessa (vv. 33 e 39) ou dom. O que realmente os distingue é o facto dos cento e vinte já serem regenerados, e os três mil só neste dia o terem sido.
Ao crerem, foram perdoados e receberam o dom do Espírito Santo.
O escritor John Stott está entre os que fazem a apologia de que a partir desse dia tanto o “dom” como o “batismo no Espírito” passam a ser recebidos simultaneamente.[3] Esta opinião também é partilhada pelos anti- carismáticos, que, com base em ICoríntios 12:13, continuam a alegar que todas as referências do Novo Testamento ao derramamento do Espírito Santo, aludem ao derramamento do Espírito que os crentes recebem no ato da conversão – a experiência é uma. Os designados pentecostais e carismáticos, por sua vez, referem o batismo no Espírito como um derramamento do Espírito pós-conversão, ou seja, experiências distintas.
Considero que algumas discordâncias se prendem com a sintaxe de I Coríntios 12:13 e com o pressuposto de “batismo no (com o) Espírito Santo” se tratar de um termo técnico. No entendimento que faço deste texto, o termo “batizados” declara a inclusão, do crente em Cristo, na Igreja, pelo Espírito; o que não significa obrigatoriamente que o seu uso noutros lugares tenha o mesmo sentido. Passagens dos evangelhos (e.g. Mateus 3:11; Marcos 1:8; Lucas 3:16) parecem ser de difícil análise quanto à possibilidade de duas obras distintas da ação do Espírito; contudo, Atos 1:5 remetendo-nos ao episódio das passagens supra, endossa esta expetativa para os já discípulos. Nelas o batizador na água, João, anuncia a chegada do batizador no Espírito Santo. Lucas (re)apresenta a promessa do Pai (v. 4), como ainda não cumprida; havia necessidade de aguardar para “não muito depois destes dias“ (Atos 1:5). O que realmente aconteceu ao fim de dez dias.[4]Um outro exemplo prende-se com os crentes efésios que, após a conversão a Cristo, foram batizados nas águas, só depois receberam o Espírito Santo (Atos 19:1-6). O versículo parece mostrar que um indivíduo pode ser discípulo sem ainda ser batizado no Espírito. Os samaritanos foram salvos durante o ministério evangelístico de Filipe, mas foi com a chegada de Pedro e João que foram batizados no Espírito como experiência poderosa e convincente (Atos 8:5-17). Saulo foi salvo no caminho para Damasco: “Quem és, Senhor ?… Senhor, que queres que faça?” (Atos 9:5 e 6); Ananias tratou-o por “Irmão Saulo” (v. 17). No entanto, foi só ao fim de três dias (ver v. 9) que, pela imposição das mãos de Ananias, Saulo foi cheio do Espírito Santo (vv. 17 e 18).
[3] John Stott (1966, pp. 13 e 14).
[4] Diferença de dias entre a ascensão de Jesus e o dia de Pentecostes (dia do derramamento do Espírito Santo; pentekostes, literalmente “quinquagésimo” – cinquenta dias após a Páscoa). Jesus foi visto “por espaço de quarenta dias” (Atos 1:3) – tempo entre a Sua ressurreição e a Sua ascensão.