UM ESTUDO DO PROPÓSITO E USO DAS LÍNGUAS NO CULTO

UM ESTUDO DO PROPÓSITO E USO DAS LÍNGUAS NO CULTO

Diferença entre idiomas humanos e línguas doadas pelo Espírito

Reinhold Ulonska menciona Friso Melzer[34]:

“O valor particular em falar línguas estranhas reside em que o ser humano ora em um idioma de que nunca abusou para o pecado”; e explica: “para mentir num idioma, há que dominá-lo com o entendimento. Quando se fala língua estranha, não é o entendimento quem se exprime, mas sim o espírito” (I Coríntios 14:14).[35]

No equilíbrio entre a possibilidade de manipulação divina, por um lado, e o linguajar estritamente humano, no que implica em termos de limitação e falibilidade, Deus trabalha com o homem no que é possível para transmissão do sagrado pelo homem impuro. A santidade do usado aproxima-lo-á do nível do sagrado a transmitir. Assim, há que julgar o que é dito e não exatamente quem o profere!

         Paulo faz diferença entre idiomas (phonai, phone), línguas humanas que se podem aprender (1 Coríntios 14:10 e 11), e a fala em outras línguas (glossais) doadas pelo Espírito (v. 13). Eis a ação do Espírito – Atos 2:4: “começaram a falar em outras[36] línguas” (lalein heterais glossais) e Atos 10:46, 19:6 e I Coríntios 14:2: “falar línguas” (glossais lalein).

         Pedro explica em Atos 11:15-17 que o ato de falar línguas (glossais lalein), evidência da descida do Espírito Santo, em 10:44 e 46, era idêntico (“como também

sobre  nós ao princípio” – 11:15) ao ocorrido em Atos 2:4. Este era o verdadeiro teste de autenticidade que justificara a aproximação de Pedro aos gentios!

         Há necessidade de se distinguir entre os dons e o dom do Espírito. Os dons são fruto da ação do Espírito pela disponibilidade humana, enquanto que o dom do Espírito se refere à doação da própria pessoa do Espírito Santo, pelo Filho e como promessa do Pai para habitar no crente. Os discípulos precisariam esperar em Jerusalém para receberem o dom, a dádiva, do Espírito, com o intuito do cumprimento eficaz do imperativo missionário. A virtude do evangelismo e até a edificação da igreja, dependeriam grandemente da manifestação dos dons ou ação do Espírito Santo.

         A alocução de línguas estranhas é apenas um dos dons do dom, o Espírito Santo!

         Distinção das línguas como sinal e como dom

         A descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes – e a partir daí – foi notada pelo ato público do falar línguas.

         Como sinal do batismo no Espírito Santo, todos falaram línguas na mesma ocasião (Atos 2:4), de uma vez e sem intérprete (Atos 2:9 e 11). As línguas, como dom, são faladas (apenas) por duas ou três pessoas (I Coríntios 14:27), devendo ser proferidas e interpretadas, visto se estar falando ao público. É importante entender que a expetativa da vinda do Espírito foi satisfeita na vida dos discípulos que O esperavam. Por outro lado temos um público que ouve as línguas, o falar das grandezas de Deus, sendo servido do grande “propósito pentecostal” – audácia para chegar aos povos como testemunhas.

         Sem dúvida que há diferença nas línguas como sinal, das línguas como dom. Na realização da Grande Comissão o ato de falar novas línguas surge como um dos sinais (Marcos 16:17) que seguem a fé, abalizando a pregação do Evangelho como confirmação divina (Marcos 16:20). No que respeita ao dom, Paulo questiona se  “Falam todos diversas línguas”(I Coríntios 12:30) – o que implica um não redondo.  Logo sugere o falar línguas como um dom não possuído por todos.[37]

         Na análise do fenómeno do falar “outras línguas”, línguas estranhas, Bittencourt alega que

tal se dá em êxtase ou transe, predominando o subconsciente e não o consciente. Trata este fato no domínio do psicológico, sendo denominado em metapsíquica como xenoglossia. Crê que a tensão do meio cultural pode provocar, em êxtase, o pronunciar de palavras ou frases conhecidas do próprio numa outra língua.[38]


[34] No livro “A nossa língua à luz da revelação de Cristo”, pp. 180 a 183.

[35] Reinhold Ulonska (pp. 174 e 175)

[36] “outras” (heterais) línguas”. Na circunstância refere-se às línguas faladas pelos judeus da dispersão que estavam em Jerusalém aquando o Pentecostes (Atos 2:5).

[37] Questão tratada em V. 2. – “Propósitos da alocução das línguas estranhas”. As línguas desenvolvem intimidade na devoção a Deus, incentivando Paulo à sua prática por todos: “quero que todos vós faleis línguas estranhas” (1 Coríntios 14:5).

[38] Bittencourt (1962, pp. 122 e 123).

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