UM ESTUDO DO PROPÓSITO E USO DAS LÍNGUAS NO CULTO

UM ESTUDO DO PROPÓSITO E USO DAS LÍNGUAS NO CULTO

Definição de “falar línguas”

         A expressão “falar línguas” (glossais lalein, em Atos 2:4; 19:6; I Coríntios 12-14 e Marcos 16:17) não é pertença nem surgiu no munus religioso, teve sua origem no meio pagão. Segundo Bittencourt, documentos como os papiros mágicos e o Papiro de Leiden registam experiências deste fenónemo.[26] Merrill Unger refere  a atitude do filósofo Platão[27] diante dos transes entusiastas dos antigos adivinhos (mantis, divinos) e recorda a atitude de Paulo perante a glossolália entre os crentes em Corinto.[28] Os coríntios, defende Bettencourt,

tinham aprendido a falar línguas estranhas entre os pagãos. Considera que esse ato “era o produto de um estado mental, do chamado êxtase religioso, mais do domínio do inconsiente do que do próprio consciente. E usa relatos do Velho Testamento (e.g. Números 11:24-30[29]; Jeremias 23:32[30] e 29:26) como demonstração da inspiração produzir êxtase.[31]

         Considero que os exemplos bíblicos usados não provam expressões de êxtase, visto o texto não declarar o uso de expressões inconscientes e desconexas; sabendo até que o ministério profético incluía informação precisa e entendida para uma resposta prática à mensagem de Deus. Assim, torna-se numa área exigente e de grande seriedade e lucidez espiritual. O profano confronta o espiritual…

Grande parte do capítulo 14 de I Coríntios trata do dom de variedade de línguas; possivelmente era o dom mais praticado na igreja de Corinto. Uma menor referência aos demais dons deve-se muito possivelmente ao fato do seu menor uso, o que também evitava maiores abusos. Convém não esquecer que as epístolas são em grande medida corretivas, atacando aspetos a melhorar na senda duma igreja apostada na excelência. O dom de variedade de línguas é a alocução ou expressão falada e sobrenatural de uma língua não conhecida da pessoa que fala, pronunciada sob a inspiração do Espírito Santo e não (podendo também ser) compreendida pelo ouvinte. Ainda que o homem esteja consciente, sua mente e intelecto permanecem inativos[32]; sendo a manifestação da mente de Deus através do órgão da fala, a língua, do ser humano. A parte ativa do que fala prende-se com submissão da sua vontade ao considerar essa experiência oriunda de Deus. Desencadeia-se uma comunhão Deus-homem pelo espírito do homem com Deus.[33] Alcança-se, outrossim, um patamar de maior intimidade, onde não é a comunhão “normal”, natural pela oração, proferida numa linguagem limitada e “poluída” pelo pecado.


[26] B. Bittencourt (1962, pp. 120 e 121).

[27] Também Virgílio descreve cenas do mesmo género (Eneida, VI, 46, 98), conforme nota 13 (Merrill Unger, p. 159).

[28] Merrill Unger (1974, p. 159).

[29] Notar o positivo dessas manifestações no desejo de Moisés: “Tomara que todo o povo do Senhor fosse profeta” (v. 29).

[30] O prejuízo estava nos falsos profetas.

[31] B. Bittencourt (1962, p. 119).

[32] Raymond Carlson aventa que “As línguas constituem um milagre vocal e não um milagre mental. A mente se faz espetadora, e os ouvidos a atendem.” (1980, p. 131).

[33] 1 Coríntios 14:2. Esta comunhão produz edificação pessoal (1 Coríntios 14:4).

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