UM ESTUDO DO PROPÓSITO E USO DAS LÍNGUAS NO CULTO

UM ESTUDO DO PROPÓSITO E USO DAS LÍNGUAS NO CULTO

DIRETRIZES PARA O USO CORRETO DAS LÍNGUAS NO CULTO

         A interpretação das línguas e a profecia

         As línguas são um dom manifestado na e para a Igreja; há necessidade da sua interpretação justamente para trazer entendimento e consequente edificação à mesma. Envolvem a comunicação do espírito do crente com Deus e expressam a entrega de nossa vontade a Ele. Diz Paulo: “o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto” (I Coríntios 14:14). A mensagem comunicada e recebida no espírito é transmitida. Assim, para que o recetor a entenda há que ser traduzida/interpretada. Quem fala língua desconhecida deve mesmo orar “para que a possa interpretar” (I Coríntios 14:13).

         Agora, será que todos os que falam línguas podem interpretá-las? Devem fazê-lo (I Coríntios 14:13). O versículo 28 adverte: “se não houver intérprete, esteja calado na igreja e fale consigo mesmo e com Deus”. Mas como saber se está presente um intérprete? Julgo que o versículo 13 estabelece o equilíbrio: “o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar”. Deve ser normal para quem fale línguas, também se disponibilizar para a interpretação da mensagem dada.
         A preocupação de Paulo, quanto ao que ele sabia gerar confusão nos crentes imaturos e nos não crentes[42], era a articulação glossolálica sem qualquer interpretação esclarecedora do seu conteúdo. Paulo considerava falar línguas um dom espiritual, mas só seria eficaz no caso de uso de outro dom espiritual – a interpretação das mesmas, tornando-se útil à congregação reunida. Se um estranho[43] assistisse a uma reunião onde as línguas fossem faladas sem interpretação, consideraria tais pessoas loucas (I Coríntios 14:23). Contudo, ao ouvir uma profecia,[3] sua consciência seria confrontada, reconhecendo a presença de Deus entre eles.

         As línguas, quando interpretadas, motivam a congregação a adorar (I Coríntios 14:5) e constituem-se tão válidas quanto a profecia. É impreterível transmitir com clareza a orientação divina.[44]

         O apóstolo Paulo recomendava ordem e decência na manifestação pública dos dons (I Coríntios 14:40). Possivelmente, alguns dos crentes coríntios, dominavam as reuniões através das mensagens em línguas (I Coríntios 14:23); parece até que as interrompiam para entregarem mensagens sem interpretação (I Coríntios 14:27, 28).

         Enquanto as línguas servem como indicador, a profecia serve como comunicador. As línguas chamam a atenção para os atos poderosos de Deus e a profecia conclama ao arrependimento e à fé como forma de correspondência a esses atos.

Propósitos da alocução das línguas estranhas

As línguas servem um propósito duplo ao contribuirem para a edificação da igreja reunida e a devoção do crente individual. Mas é em privado que o crente desenvolve sua intimidade com Deus – ali o seu espírito ora: “em espírito fala (I Coríntios 14:2), “se eu orar em língua estranha, o meu espírito ora” (I Coríntios 14:14), “Orarei com o espírito… cantarei com o espírito” (I Coríntios 14:15), “se tu bendisseres com o espírito” (I Coríntios 14:16). A verdadeira identidade, o que pertence ao homem, só o seu espírito o sabe (I Coríntios 2:11).  Assim sendo, a comunhão íntima deste com Deus realiza-se pelo seu espírito com o Espírito de Deus.[45] O homem pode cantar com o espírito (I Coríntios 14:15) e pode dar bem as graças (I Coríntios 14:17)… ainda que quem fala não compreenda o teor das palavras.[46] As línguas devocionais produzem edificação pessoal: “edifica-se a si mesmo” (I Coríntios 14:4), o que dita a exortação: “quero que todos vós faleis línguas estranhas” (I Coríntios 14:5).

         Numa apreciação do valor da alocução de línguas estranhas, e olhando o texto de I Coríntios 14:18: “Dou graças ao meu Deus, porque falo mais línguas do que vós todos.”, podemos notar que Paulo passava mais tempo e de maneira mais intensiva a falar línguas que qualquer crente (coríntio, na circunstância). É claro que se está a referir à prática devocional do dito dom: “Todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida.” (I Coríntios 14:19).


[42] “indoutos ou infiéis” (1 Coríntios 14:23). “indoutos” (do grego idiotai – não treinado, sem aprendizado, um leigo em contraste com o especialista) – principiante na fé ou analfabeto espiritual. Champlin traduz como “os despreparados”, os que não possuíam dons espirituais (Champlin, Vol. IV, 221). “infiéis (do grego apistoi – incrédulo) – descrentes.

[43] Ver nota anterior.

[44] A profecia, em termos de eficiência ou propósito para com os “indoutos ou infiéis” surte os mesmos resultados que o proferir das línguas estranhas e sua consequente interpretação. (A profecia – 1 Coríntios 14:24 – surge como a solução para a manifestação/revelação incompleta” (dedução a partir de 1 Coríntios 14:23) do falar línguas estranhas. Notar também o reforço doutrinário da edificação do corpo: “Quando vos ajuntais, cada um de vós tem… língua… interpretação… para edificação” (1 Coríntios 14:26).

[45] Paulo utiliza a analogia da flauta, da cítara e da trombeta tocadas sem som nítido, harmonioso, para mostrar a ineficácia das línguas sem interpretação: os ouvintes não são beneficiados.

[46] Dedução interpretativa de 1 Coríntios 2:10-12, 15 e 16.

[47] … nem tão pouco quem o ouve: “… ninguém o entende… em espírito fala de mistérios…” (1 Coríntios 14:2).

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