TEOLOGIA “À LA CARTE”?

TEOLOGIA “À LA CARTE”?

Gera-se na Religião uma Mentalidade de Mercado.

Peter Berger cunhou esta expressão por analogia com o que sucede no campo económico, em que vários produtos são ofertados obedecendo às leis de compra e venda. Nesse conceito de mercado, as várias ideologias e religiões são oferecidas aos indivíduos procurando cativar uma clientela. Eficiência, marketing, relações públicas e capacidade de gerência passam a ser a obsessão dos que estão no mercado. Esses instrumentos da administração de empresas, numa situação de mercado, capacitam ao produtor mercadejar mais facilmente o seu produto.

Desta forma, a religião transforma-se em mais um participante do mercado. Para sobreviver, precisa passar por adaptações constantes. No mercado o cliente tem sempre razão e, como o gosto dos clientes muda rapidamente, a mentalidade mercantil da igreja é forçada a adaptar-se ao sabor dos novos ventos. Entende-se, por que tantos modismos eclesiásticos e tantos novos ventos de doutrina sejam uma necessidade de agradar ao cristão, como se ele fosse um cliente.

A confrontação e os posicionamentos que parecem intolerantes são abandonados, e a igreja rende-se ao que Berger chamou de “adaptação excessiva”. O afã de agradar ao mercado passa a uma aceitação das suas exigências. A igreja busca o diálogo cultural apenas para aprender a adequar-se ao que exige a clientela. Nos grandes centos urbanos, é comum que a equipa pastoral se reúna semanalmente como os executivos das grandes empresas: procuram-se meios e estratégias que satisfaçam plenamente os seus clientes.

Essa atitude de rendição ou adaptação total vende a fé por um valor muito reduzido. E pior, a concorrência determina o preço. Quanto mais gente disputa os mesmos crentes, menos exigentes se tornam os sermões. No balcão das liquidações, oferecem-se produtos religiosos a um custo cada vez mais baixo. O importante é manter a casa cheia. Assim, se a necessidade de uma vizinhança é de uma religião “água com açúcar”, proclama-se um evangelho bem ralo. Se a tendência é viajar num transe bem esotérico e psicadélico, então sopra-se, promovem-se arrebatamentos. Se os jovens gostam de música alta, badalações mil, pouco compromisso, o pastor põe um boné na cabeça e transforma o culto num “Programa Livre”; se o perfil das pessoas é mais legalista, monta-se um esquema repressivo de proibições; se as pessoas se mostram mais inclinadas ao tradicionalismo, abolem-se as baterias, e o órgão volta a reinar.

Ao sucumbir diante desta tentação de mercadejar a fé, a igreja local deixa de ouvir a voz e o propósito de Deus. Os pastores, ao invés de buscarem, com o rosto no pó, a vontade de Deus, conduzem pesquisas de bairro, deixam o altar pela jogada de marketins. (pp. 69-70).

Considero que podem ser usadas as ferramentas que a cultura coloca ao nosso alcance e ter em consideração o que é mais agradável e sugestivo na apresentação da nossa mensagem, desde que isso não comprometa nem desvirtue a mensagem que estamos a transmitir e a exigência de que essa mensagem é bíblica. Defendo que necessitamos de nos contextualizar em termos de comunicação e alcance, tendo sempre presente que é Deus quem faz a obra, de que é Dele que temos de depender em absoluto, mas também tendo a noção de que Deus usa homens e mulheres e que carecemos de estar enquadrados nos nossos tempos. As antiguidades não são mais “espirituais” só porque são antigas. No seu tempo foram contemporâneas e modernas! Devemos juntar forma e conteúdo sendo que o conteúdo deve ter primazia sobre a forma e esta só cumpre o seu propósito se levantar os conteúdos.

Felizmente, Deus deu-nos uma narrativa feita de muitas histórias cumpridas na História, e todos, sem exceção, apreciam uma boa história e, com esta, torna-se mais fácil ensinar, aprender e partilhar os conteúdos da fé e as suas implicações práticas. As narrativas implicam ação, vivências, relacionamentos, confrontos, crises, sucessos e derrotas, avanços e recuos. Afinal tudo o que a nossa vida experimenta. A sua aplicação é direta. A narrativa encaixa-se em cada um desses períodos, bem como em todas as culturas e em todas as faixas etárias. Quem não resiste a uma boa história?

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