“RESTAURAR” O PÚLPITO
Causa-me estranheza e incómodo quando hoje deixamos de ouvir falar de púlpito ou tribuna, para ouvirmos falar de palco. As palavras valem o que valem e o seu uso preferencial traduz realidades que não podemos ignorar. Influência da cultura? Alteração da ênfase eclesial e litúrgica? Mudança de paradigma da instrução bíblica para a animação? Não quero ser excessivo. De uma coisa não temos certamente dúvida alguma, o destaque e a ênfase do culto não podem esbater a Palavra e a sua exposição.
Uma das obras que mais me impressionou sobre a exigência do púlpito e da preparação de um sermão de D. Martyn Lloyd-Jones, sobre a principal das razões, que segundo o autor, contribuíram para diminuir a importância do púlpito:
Eu não hesitaria em colocar na primeira posição a perda da crença na autoridade das Escrituras, e o decréscimo na crença da Verdade. Coloco este aspeto em primeiro lugar por ter a certeza de ser ele o fator principal. Se alguém não for revestido de autoridade, não poderá falar bem, não poderá pregar. Grandes pregações dependem sempre de grandes temas. Grandes temas produzem sempre grandes exposições faladas em qualquer campo, e isso é particularmente veraz, como é óbvio, no campo da Igreja. Enquanto os homens criam nas Escrituras como a autoritária Palavra de Deus, e falavam alicerçados sobre essa autoridade, tínhamos grandiosas pregações. Porém, uma vez que isso desapareceu, e os homens começaram a especular, a postular teorias, a apresentar hipóteses, e assim por diante, a eloquência e a grandiosidade da palavra falada passaram, inevitavelmente, a declinar e começaram a desvanecer-se. Na verdade, não se pode tratar de especulações e conjeturas da mesma maneira como, antigamente, a pregação abordava os grandes temas das Escrituras. Mas, quando a crença nas grandes doutrinas da Bíblia começou a fenecer, quando os sermões passaram a ser substituídos por perorações e homilias, pelo apoio moral e pelos discursos sociopolíticos, não foi de surpreender que a pregação declinasse. Sugiro ser esta a causa primária e maior desse declínio. (Lloyd-Jones, 1984, pp. 9-10).
NOVOS “FORMATOS” DE ENSINO-APRENDIZAGEM
Claro que as estratégias e metodologias de aprendizagem têm-se alterado com o tempo. Cada vez mais o método expositivo numa comunicação unilateral, está a perder terreno e é cada vez mais preterida em relação a métodos mais interativos que são claramente respaldados no texto bíblico como é o caso de Deuteronómio 6. Sem abandonar o púlpito radicalmente, há que dar lugar a outros contextos alternativos como é o caso dos pequenos grupos para estudo partilhado da Palavra de Deus em que há oportunidade de todos participarem. Nada de novo se pensarmos que as classes da Escola Dominical seguiam este modelo e se constituíam nesta alternativa.
DIETA DE BÍBLIA
Como Stott (2003) refere no título do seu livro “Eu Creio na Pregação”, também eu tenho essa convicção, mas não posso deixar de adiantar um desabafo de que algumas vezes fico dececionado e de que a exposição em vez de provocar fome pelo texto causa fastio, em vez de trazer esclarecimento provoca confusão, em vez de promover encorajamento e ânimo provoca desencorajamento e abatimento. Tenho particular apreensão quando se encontra em todos os textos motivos para censura, crítica, condenação e sentimento de insuficiência. Faz-me lembrar o que acontece na educação de um filho quando o pai nunca está satisfeito com os resultados escolares, e mesmo que o filho obtenha um 19,9, a sua resposta é que poderia ter tido um vinte. É fácil de perceber as mazelas emocionais que tal atitude irá causar. Não é isso de todo que encontramos na Bíblia, particularmente nas cartas do Novo Testamento, em que a par da orientação positiva relativa ao crescimento e desenvolvimento espirituais, e às atitudes e conduta cristã, encontramos o incentivo e até o elogio em relação ao caminho e processo percorridos.
No capítulo dedicado ao esboço histórico e no contexto do século XX, Stott (2003) escreve:
O melhor exemplo que encontrei desse período de confiança ilimitada nos efeitos benéficos da pregação é aquele do reverendo Charles Silvester Horne, que apresentou as preleções “Beecher” sobre a pregação em Yale em 1914, e as chamou The romance of preaching [O fascínio da pregação]. Morreu dias depois, no navio que o levava para casa. Decerto, preparara essas preleções em 1913, porque elas não revelam nenhuma apreensão da guerra que se aproximava. Horne era tanto um ministro congregacional quanto um membro do parlamento britânico. Tinha boa reputação pela sua eloquência na Câmara dos Comuns, e pela sua paixão pelo púlpito. H. H. Asquith ia frequentemente ouvi-lo pregar, pois, segundo dizia: “Horne era intensamente flamejante”. Sendo tanto político como pregador, conseguia, a partir da sua experiência pessoal, comparar entre si as duas vocações, e não tinha a mínima dúvida a respeito de qual delas era a mais influente:
O pregador, que é mensageiro de Deus, é o verdadeiro senhor da sociedade; não foi eleito pela sociedade para ser seu governante, mas eleito por Deus para formar os ideais desta, e por meio deles, guiar e governar a sociedade. Mostre-me um homem que, no meio de uma comunidade, por mais secularizada que esteja nos seus modos, a consegue levar a pensar com ele, consegue acender o seu entusiasmo, revivificar a sua fé, limpar as suas paixões, purificar as suas ambições, tornar inabalável a sua vontade, e eu lhes mostrarei o verdadeiro senhor da sociedade, independentemente do partido que segura nominalmente as rédeas do governo, não importa que figura de proa ocupa o lugar ostensível da autoridade. (pp. 40-41).