TEOLOGIA “À LA CARTE”?

TEOLOGIA “À LA CARTE”?

A CULTURA DO ENTRETENIMENTO

Esta é uma das marcas por excelência dos nossos dias. Veio para ficar. Infiltra-se em todos os setores, da educação aos tempos livres. Utiliza-se dos mais sofisticados recursos e equipamentos tecnológicos, com o telemóvel à cabeça. É o fator preponderante das redes sociais. Tem a ele associado o individualismo, o egocentrismo e o imediatismo.

Significativo este excerto de Miller (2001):

Neil Postman, no seu criterioso livro, Amusing ourselves to death [Morrendo de tanto se divertir], assinala que a era da informática pode ser definida como a era do entretenimento. Esta geração, mais do que todas as antecedentes, exige que as informações que consome lhe cheguem de forma divertida. Ainda que as informações sejam substantivas ou extremamente importantes, não são aceites se não divertirem aqueles a que instrui. Dificilmente existirá um grupo de louvor ou grupo teatral que não sinta agora essa exigência imposta na igreja pela indústria do entretenimento.

Uma vez que a era da informática é também a era do entretenimento, a igreja tem abandonado muitas vezes a sua vocação de serva e acolhido novas companhias de atores do presbitério. O objetivo principal da igreja no passado talvez tenha sido louvar, mas recentemente parece que ela tem sido convocada principalmente para prender a atenção. A igreja entra na fila com os demais mascates, tendo trocado as suas doxologias gloriosas por “não há negócio como o negócio do entretenimento…”. (p. 140).

A EMENTA TEOLÓGICA E OS SABORES PREFERIDOS

Depois de termos considerado a questão do ponto de vista de quem está envolvido no labor teológico, é importante voltarmo-nos também para aqueles que procuram o ensino da Bíblia e que devem, hoje como ontem, ter cuidados redobrados na verificação da consistência bíblica do que lhes é apresentado. Há uma responsabilidade de quem ministra. “Meus irmãos, pensem bem antes de querer ser professores. Não se esqueçam que quem ensina será sujeito a um julgamento mais rigoroso de Deus. (Tiago 3:1 – OL). Mas existe a responsabilidade, não menor, de quem escuta. Todos, sem exceção, somos implicados no processo de nos debruçarmos com respeito, atenção redobrada, rigor e isenção sobre o que Deus nos fala, e que todos, pelo mesmo Espírito, estamos em condições de perceber. Foi assim que aconteceu com os crentes de Beréia que são elogiados no texto bíblico: “O povo de Beréia tinha um espírito mais aberto que o de Tessalónica, ouvindo de boa mente a mensagem e examinando dia após dia as Escrituras, para ver se o que Paulo e Silas diziam era exato.” (Atos 17:11 – OL).

Vivemos a chamada pós-modernidade e como aconteceu anteriormente, tanto na pré-modernidade como na modernidade, lidamos com as consequências da cultura na leitura e interpretação da Escritura.

Os últimos tempos têm sido pródigos em ondas sucessivas de “novidades” que arrastam pessoas e as desviam da centralidade do arrependimento, da conversão e de uma nova vida na dimensão espiritual, relacional e ética. O pensamento positivo, a confissão positiva, a teologia da prosperidade, o mágico-sacramentalismo, o Kingdom Now, o misticismo, os judaizantes e as revelações pessoais, são alguns dos exemplos mais recentes que em catadupa vão surgindo quase sem dar tempo para se recuperar da vaga anterior. Os que andam à procura de novidades são facilmente arrastados e as igrejas locais sofrem uma profunda erosão. Considerando o texto bíblico, não temos razões para nos admirarmos ou para ficarmos surpreendidos. Na igreja do primeiro século já muitas destas tendências emergiam ao ponto de verificarmos a intenção didática e pedagógica da doutrinação sem uma referenciação direta aos grupos e às suas designações, porque ao longo dos séculos elas reapareciam com outros nomes, embora com o mesmo conteúdo.

A mudança do foco é um sinal do desvio.

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