PONTES ENTRE A TEOLOGIA E A CULTURA
Mas a teologia tem também em consideração a cultura da sociedade no momento em que a Bíblia é lida e é aplicada aos posicionamentos humanos. Nesta dimensão chamamos a atenção para a obra do escritor e comentador bíblico que marcou o pensamento bíblico da nossa geração, John Stott, cujo título é bem significativo: “Ouça o Espírito, Ouça o Mundo”. O que não significa, nem implica, uma cedência a esses fatores culturais, antes pelo contrário. Também não significa que a origem da reflexão está na cultura, na forma e nos dados que ela comporta, mas no texto bíblico. Reconhecemos que a reflexão teológica não é feita num vazio cultural, que a cultura está presente e de algum modo condiciona a nossa visão e perceção. Duvidamos que alguma vez nos possamos despir das ideias nas quais fomos educados e formados. Nem sempre essas ideias se opõem ao que a Bíblia fala. Por outro lado, a reflexão da Bíblia dirige-se na sua exposição e aplicação a essa mesma sociedade e cultura, confrontando-a ou tomando alguns dos seus aspetos como ponte. Temos um excelente exemplo disto mesmo na estratégia do apóstolo Paulo na cidade de Atenas. “Paulo, pondo-se de pé diante deles no Areópago, falou-lhes assim: Gente de Atenas, vejo que são muito religiosos, pois ao passar pela cidade reparei em muitos altares, um deles tinha até a inscrição AO DEUS DESCONHECIDO. Afinal, têm andado a adorá-lo sem saber quem ele é e, por isso, quero falar-vos agora acerca desse mesmo Deus.” (Atos 17:22,23 – OL).
Damos a palavra a Stott (2005) com algumas citações da obra em apreço:
A principal razão de traição ao verdadeiro Jesus é que nós ouvimos com exagerada deferência a moda contemporânea, ao invés de escutarmos a Palavra de Deus. (…)
Às vezes parece que o mercado também impõe as suas regras à igreja. Com toda a prestatividade, nós cedemos ao espírito moderno, tornando-nos escravos da última moda, e até mesmo idólatras, dispostos a sacrificar a verdade no altar da modernidade. Então a busca por relevância acaba por se degenerar, transformando-se numa obsessão por popularidade. (…)
Eu gostaria de esclarecer uma vez mais que não estou a dizer que os cristãos não deveriam ouvir as ideias dos outros, ou levar a sério o que acontece no seu contexto cultural, ou participar de lutas políticas do seu tempo. O que me perturba não é o facto de se ouvir como tal, mas, sim, o facto de se ouvir com adulação acrítica, se não intenção idólatra – de ouvir, se é que se ouve, de olhos arregalados e boquiabertos de admiração. (…)
Recusemo-nos a tornarmo-nos, ou tão absorvidos com a Palavra que acabemos fugindo dela e deixemos de a confrontar com o mundo, ou tão absorvidos com o mundo que nos conformemos com ele, deixando de o submeter ao julgamento da Palavra. Escapismo e conformismo são erros opostos, mas nenhum dos dois é uma opção cristã. (…)
(…) somos chamados a ouvir a dobrar, ou seja, ouvir tanto a Palavra quanto o mundo. É um truísmo dizer que precisamos ouvir a Palavra de Deus, a não ser, talvez, que precisemos de o ouvir com mais atenção e humildade, prontos para que Ele nos confronte com uma palavra inquietante e inesperada. (pp. 25-29).