DE CAPA A CAPA
Depois de todas estas considerações preliminares que consideramos fundamentais, o que pretendemos defender neste trabalho é que uma teologia bíblica só existe tendo como ponto de partida a Bíblia de capa a capa, está sujeita ao contraditório sempre a partir do crivo da própria Escritura e segue os princípios da hermenêutica e da exegese. Só desta forma será possível fugir ao abismo recorrente de formulações que apenas satisfazem modismos, achismos humanos, tanto culturais de grupo como individuais, abordagens filtradas pelas filosofias prevalecentes.
Estamos conscientes de que que a “descoberta” de princípios bíblicos desde sempre existentes na Bíblia, como é o caso da doutrina pentecostal do batismo com o Espírito Santo e da glossolália (evidência de falar em outras línguas concedidas pelo Espírito Santo), bem como da contemporaneidade dos dons do mesmo Espírito Santo, suscitaram fortes críticas por parte de quem estava enquistado e refém de uma tradição doutrinária e teológica que não tinha logrado discernir tais verdades. Esta realidade não nos pode empurrar para a atitude de tudo assimilar sem um espírito biblicamente crítico, mas para o princípio de tudo examinar como acontecia com os crentes de Bereia.
AS SOLAS DA REFORMA PROTESTANTE
Todos nós valorizamos os princípios da Reforma Protestante nas chamadas solas – sola scriptura, sola gratia, sola fide, solus Christus, soli Deo gloria. Mas destes princípios faz parte um que muitas vezes é esquecido: “Ecclésia reformata et semper reformanda est” – uma igreja reformada sempre se reformando, ou seja uma igreja sempre aberta e recetiva ao mover do Espírito Santo, para que não se torne uma “múmia”, ou um “monumento”, refém de tradições empoeiradas e da morte, sem relevância no seu tempo. Talvez uma melhor tradução seja “ecclesia reformata sempre reformanda secundum verbum Dei”, ou seja, a Igreja reformada, sempre em reforma de acordo com a Palavra de Deus, dado que esta é a verdadeira ideia que podemos extrair das Solas Protestantes.
CONFISSÕES DE FÉ HISTÓRICAS
Reforçando a ideia de que a base essencial e fundamental da reflexão teológica é a Bíblia, devemos prestar atenção ao percurso histórico da formulação doutrinária que se encontra consubstanciado nas grandes confissões de fé históricas: Credo dos Apóstolos, Credo de Nicéia, Credo de Calcedónia, Credo de Atanásio, Os Trinta e Nove Artigos, Confissão de Westminster, Confissão Batista de New Hampshire, Mensagem e Fé Batista, A Declaração de Chicago sobre a Inerrância da Bíblia e a Declaração de Fé das Assembleias de Deus.
PRÉ-MODERNIDADE, MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE
Podemos identificar, rapidamente, a pré-modernidade com o paradigma da tradição, a modernidade com a razão e a pós-modernidade com o coração, a emoção e o sentimento.
Costumo dizer que felizmente Deus não nos entregou como revelação uma teologia sistemática. A Teologia Sistemática é filha da modernidade, embora esta afirmação possa não ser consensual, em virtude de já encontrarmos teologias sistemáticas com Tomás de Aquino e Agostinho. Digo-o porque ela pretende uma sistematização dos grandes temas da Bíblia, e esta sistematização faz parte da postura moderna. Felizmente Deus não nos deu a Sua revelação na forma de uma teologia Sistemática, porque muitos não aguentariam a sua leitura. A teologia sistemática é tarefa dos estudiosos que se debruçam sobre o texto bíblico para, no seu todo, apresentarem as verdades bíblicas nos grandes temas da Palavra de Deus: de Deus, do Homem, de Cristo e do Espírito Santo, da Redenção, da Igreja e do Futuro. Por exemplo, consulte a Teologia sistemática de Grudem (1999).
Existem várias obras no meio evangélico, que de um modo muito pertinente segundo a Escritura Sagrada e as ferramentas sociológicas, nos apresentam a pós-modernidade e as suas consequências nesta dinâmica em que as pessoas buscam as igrejas, os estilos de liderança e os conteúdos doutrinários e as suas ênfases, como se de um cardápio num restaurante se tratasse. Recomendo livros como Pós-Modernismo – um guia para entender a filosofia do nosso tempo, de Stanley J. Grenz; Fim de Milénio: os Perigos e Desafios da Pós-Modernidade na Igreja, de Ricardo Gondim; Icabode – da mente de Cristo à consciência moderna, de Ruben Amorese; e Pós-Modernidade – novos desafios à fé cristã, de Daniel Salinas e Samuel Escobar. Selecionei uma citação da obra mencionada de Gondim (1996), pelo acerto das suas considerações a propósito da influência da mentalidade de mercado na religião: