A CHAVE HERMENÊUTICA DA ESCRITURA
Acrescentaria aqui uma obra particularmente interessante de Keller (2017) sobre a análise e exposição do texto bíblico tendo como chave hermenêutica a pessoa de Jesus Cristo. Este foco contribui de forma indelével para estarmos precavidos com as formulações teológicas que perdem o sentido e o propósito central da Escritura.
Charles Spurgeon, o célebre pregador britânico do século XIX, era ousado na sua insistência de que todo o sermão deveria pôr Cristo em destaque, para que todos os ouvintes o contemplassem. Ele queixava-se de que frequentemente ouvia sermões “muito eruditos (…) magníficos e sofisticados”, no entanto tudo girava em torno da verdade moral e da prática ética, bem como em torno de conceitos inspiradores, e não havia “nenhuma palavra sobre Cristo”. Eis o que ele disse sobre esse tipo de pregação, evocando as palavras de Maria Madalena: “Levaram embora o meu Senhor e não sei onde o puseram. Não ouvi nada de Cristo!”. Ele está certo. A menos que preguemos Jesus, e não um conjunto de “morais da história”, princípios atemporais ou bons conselhos, as pessoas jamais compreenderão ou amarão a Palavra de Deus, obedecendo-lhe de verdade. O que Spurgeon pede é mais difícil do que parece e mais raro do que possa imaginar. (p. 23).
Para compreender e explicar qualquer texto da Bíblia, é preciso situá-lo no seu contexto, o que significa também inseri-lo no contexto canónico: a mensagem da Bíblia como um todo. Que mensagem é essa? Da perspetiva do Antigo Testamento, é a de que a “salvação vem do Senhor” e somente do Senhor (Jn 2:9, NIV). Somos demasiadamente caídos para nos salvar a nós mesmos, falhos demais para manter a nossa aliança com Deus. É preciso que haja uma intervenção radical da graça, que só pode porvir do próprio Deus. No Novo Testamento, vemos como a salvação vem do Senhor. Ela vem unicamente por meio de Jesus. “… São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco: Era necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito sobre mim na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras…” (Lucas 24:44,45). Jesus disse a seus discípulos que se não compreendessem quem ele era e o que viera fazer, não poderiam entender a salvação de Deus, tampouco a Bíblia. (p. 63).
Stott (2003) dá a palavra neste tópico ao considerado por muitos “o príncipe dos pregadores”:
Nas preleções aos seus alunos e nas conferências dadas aos pastores, Spurgeon voltava continuamente ao mesmo tema glorioso: “O que pregaremos?”, pergunta a si mesmo. Então responde:
De tudo quanto eu desejaria dizer, o resumo é o seguinte: meus irmãos, preguem a Cristo, sempre e perpetuamente. Ele é a totalidade do Evangelho. A sua pessoa, ofícios e obra devem ser nosso único tema grande, que a tudo compreende. O mundo ainda precisa conhecer o seu Salvador, e o meio de o alcançar […] A salvação é um tema a favor do qual eu gostaria de alistar todas as línguas santas. Estou guloso por testemunhas do Evangelho glorioso do Deus bendito. Quem me dera que Cristo crucificado fosse a mensagem universal dos homens de Deus. (p. 163)