Devemos lembrar que simplesmente não há evidências nos versículos 33b a 35, no restante da carta e nem mesmo fora da Bíblia que indique que tal desordem era um problema específico da Igreja de Corinto.
O termo “laleo” (usado na expressão “não lhes é permitido falar”) é bastante comum (Paulo usa-o 60 vezes e aparece em todo o Novo Testamento 298 vezes), com o sentido de falar, e Paulo usa-o frequentemente para referir-se ao discurso comum inteligível. Era a palavra mais simples para referir a qualquer acto de falar[10]. Portanto a sugestão de que Paulo proibia o discurso feito desordenadamente por mulheres espalhafatosas carece de evidência. No mínimo existe a possibilidade de Paulo não estar a referir-se a esse modo de falar.
Essa interpretação também fracassa quando tenta explicar o versículo 33b, que faz com que a regra de Paulo quanto ao silêncio seja aplicada a todas as igrejas da época de Paulo, e não apenas à Igreja de Corinto. Significa que qualquer explicação que limite sua aplicação a uma situação particular em Corinto não é convincente. Em contraste Paulo explicitamente diz aos coríntios que em todas as congregações dos cristãos do primeiro século (tanto judaicas quanto gentias), as mulheres mantinham o tipo de silêncio que é ordenado aqui. Paulo orienta os coríntios a se conformarem com uma prática que era universal na Igreja primitiva. Gramaticalmente é possível fazer com que a expressão “como em todas as congregações dos santos” (1Co.14:33b), modifique a cláusula anterior: “…pois Deus não é Deus de desordem, mas de paz” (1Co.14:33a). Contudo tal leitura não se encaixa no sentido da passagem. Depois de dizer algo sobre o carácter de Deus – que é sempre o mesmo – não haveria razão para Paulo dizer “como em todas as congregações dos santos”, como se os coríntios pudessem imaginar que Deus seria de paz em algumas igrejas e noutras não. Mas se “como em todas as congregações dos santos” modifica as instruções posteriores sobre o comportamento durante os cultos de adoração, então a expressão faz muito sentido. Os coríntios não deveriam desviar-se dos padrões de adoração seguidos por todas as igrejas em todo o lugar. Esta é a leitura que fazem ARA, NVI e a NTLH e muitos os estudiosos. Carson diz: A palavra “igrejas” está no plural em 1Co.14:34, isso quer dizer que Paulo está falando sobre uma prática que vai além de uma única igreja local, chegando às “igrejas” de modo geral, independentemente do que alguém possa concluir a partir do v.33b[11].
[10] KASSIAN, Women, Creation and the Fall, p.105-123.
[11] CARSON, Showing the Spirit: a Theological Exposition of 1Corinthians 12-14, p.122