Cristianismo evangélico: da exclusão à construção de um espaço social em Portugal, numa convergência estratégica com o republicanismo

Cristianismo evangélico: da exclusão à construção de um espaço social em Portugal, numa convergência estratégica com o republicanismo

Dentro deste prisma, Pedro Castro da Silveira,[39] genro do introdutor do protestantismo calvinista em Portalegre (George Robinson), realizou uma obra benemérita invulgar.[40] Mais uma vez, existe uma aproximação metodológica entre os ideários religiosos dos protestantes e o ideário político do republicanismo, no que concerne à difícil questão do assistencialismo público. Diga-se de passagem que, tais medidas seriam concretizadas pela Primeira República, no que se refere à implementação de asilos, creches, sanatórios, maternidades, escolas infantis, etc., e tiveram amplo apoio das camadas protestantes.

A complexidade da integração dos cristãos reformados não impediu algumas das suas iniciativas, mas, como demonstrámos, estas decorreram num quadro desfavorável, embora em finais da centúria de oitocentos surgissem espaços de abertura, como o republicanismo nascente, em relação a uma construção cooperante em matéria de liberdade religiosa no nosso país.

As consequências inclusivas da implantação da República para o movimento protestante

O republicanismo, desde os primórdios, congregou no seu seio uma componente anticlerical, sendo o seu núcleo ideológico crítico quanto à hegemonia da religião em todos os patamares sociais, a qual não só tinha constitucionalmente o privilégio de ser a religião do reino, como também exercia influência nevrálgica no mesmo. No entanto, as diversas temáticas discutidas e debatidas nos finais do século XIX e nos inícios do XX resumiam-se à questão religiosa articulada com as questões sociais, políticas e do ensino. De facto, a combinação daquela mundividência crítica e da busca de uma nova sociedade, em que a religiosidade cívica ganharia espaço, criou, sem implicações políticas diretas, um espaço de manobra para grupos marginalizados como os protestantes. A instauração da República, a 5 de outubro de 1910, foi a consumação de um projeto de moralização política e social, em que o coletivo se traduzia no patriotismo que se podia segmentar em grupos e organizações que dispunham de alguma autonomia de ação.


[39] Destacado protestante e militante do Partido Republicano Português, tornou-se dirigente de proa da União Cristã da Mocidade, da Aliança da Juventude Evangélica Portuguesa, estando entre os fundadores da Sociedade União Operária, do Montepio Operário, de uma creche e da Associação dos Bombeiros Voluntários de Portalegre (R. M. Leite, op. cit., p. 146).

[40] A. Ventura, Entre a República e a Acracia: O Pensamento e a Ação de Emílio Costa. (1897-1914), 1994, p. 35.

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