Cristianismo evangélico: da exclusão à construção de um espaço social em Portugal, numa convergência estratégica com o republicanismo

Cristianismo evangélico: da exclusão à construção de um espaço social em Portugal, numa convergência estratégica com o republicanismo

Mais sofisticadas ainda, são as críticas advindas do universo religioso católico, que afirma que o protestantismo é uma filosofia racionalista: “A exegese racionalista é uma consequência necessária da exegese protestante”[28]. Como nota final da rejeição social e religiosa, o protestantismo era visto como propagandista, ao recorrer à evangelização.[29]

Cristianismo evangélico: uma integração difícil em Portugal, num percurso com lugares comuns com o republicanismo

Durante a segunda metade do século XIX, a igreja reformada em Portugal foi sendo implementada de forma lenta,[30] num espaço de indefinição legal gritante, que levava os seus mais altos signatários a protestarem veementemente.[31] As leis da altura foram descritas como altamente ultramontanas, dinamizando uma mentalidade que “praticamente negava a liberdade de consciência e de cultos”[32]. Nesse espaço exíguo, os protestantes portugueses promoveram iniciativas sociais tendentes a penetrar no tecido social português. Uma dessas iniciativas foi, como já referimos, a divulgação da Bíblia, pese embora fosse, de quando em vez, alvo de diversas ações de confisco.[33] Ainda que a prioridade fundamental fosse a divulgação bíblica, esta não constituiu o único meio de penetração na sociedade portuguesa por parte dos crentes evangélicos. Uma dessas áreas de intervenção, igualmente influente, foi o ensino. A instrução foi, desde os primórdios, uma das principais lutas dos religiosos reformados, visto que a centralidade da leitura das Escrituras no culto promovia a alfabetização, como bem disse Eduardo Moreira em resposta à crise nessa matéria: “conservação da moral evangélica, moral de coração, que não do cérebro, do Livro, que não dos livros”[34].


[28] Dom L. M. da S. Ramos, Afirmações Católicas contra os erros de Um Apóstata,1889, p. 25.

[29] M. de Albuquerque, O Protestantismo, s.d., p. 7.

[30] Na década de 70 existiam quatro ramos que representavam o universo evangélico em Portugal: o metodista, de onde eram oriundos os irmãos Cassels e Robert Moreton; os presbiterianos, de Robert Stewart; a comunidade episcopal, de Thomas Pope; e a congregacionalista, de Helena Roughton (R. M. Leite, op. cit., p. 133).

[31] E. Moreira, op. cit., p. 202.

[32] Idem, ibidem, p. 206.

[33] R. R. Kalley, Aos Madeirenses, 1843, p. 1.

[34] E. Moreira, A Crise Nacional e a Solução Protestante,1910, p. 25.

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