Cristianismo evangélico: da exclusão à construção de um espaço social em Portugal, numa convergência estratégica com o republicanismo

Cristianismo evangélico: da exclusão à construção de um espaço social em Portugal, numa convergência estratégica com o republicanismo

Assim sendo, o carácter messiânico da República, enquanto projeto de regeneração nacional, acabou por degenerar num sentimento de frustração, partilhado pelos universos político e religioso, tendo sido o percurso deste último, conformado ao protestantismo, objeto de nossa análise.[49]

Conclusão

Com efeito, o percurso desde a exclusão até à liberdade de culto do protestantismo foi alicerçado na compreensão do contexto da história das mentalidades, dentro de um quadro orgânico estatal e de cultura confessional desfavorável de tradição católica. Esse pano de fundo condicionou largamente as liberdades destas comunidades, como o processo de transformação das estruturas político-legislativas. A Primeira República procurou combater precisamente esse monopólio cultural enraizado, destacando-se a problemática de cariz religioso na órbita da sua ação.

A solução de liberdade de consciência preconizada pela Primeira República veio eivada da imposição de uma certa religiosidade cívica à volta de símbolos.[50] A concretização da sociedade idealizada pelos republicanos correspondeu, na essência, a uma tentativa de regenerar a sociedade através da subalternização de mediações tradicionais, perspetivadas como conservadoras, nocivas e como fatores de atraso.

Em relação ao protestantismo luso, a Primeira República, mais do que proporcionar uma recomposição, potenciou o incremento de algumas áreas de intervenção anteriormente definidas e a definitiva concretização de algumas atividades antes projetadas. Porém, muito embora tenha havido coordenação entre as áreas políticas, jurídicas e religiosas, houve, no entanto, alguma divergência entre a lei e a prática. Com isso, não se invalidam esses resultados num percurso complexo e moroso de integração das comunidades evangélicas na sociedade portuguesa. A República foi, sem qualquer dúvida, um marco no sentido de ter encetado um processo de laicização e de secularização em Portugal. A filiação de figuras protestantes no Partido Republicano é demonstrativa de que esses processos não foram necessariamente criados e consolidados à custa do confronto entre a política e a religião.


[49] J. Medina, Oh! A República! Estudos sobre o Republicanismo e a Primeira República Portuguesa, 1990, p. 309.

[50] Para esse efeito, a República não se limitou às fronteiras da neutralidade, antes desenvolvendo a sua própria religiosidade, instaurando o seu próprio culto oficial – o da pátria, da bandeira, o do hino e da memória dos portugueses ilustres e dos seus feitos eternizados no calendário.

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