Cristianismo evangélico: da exclusão à construção de um espaço social em Portugal, numa convergência estratégica com o republicanismo

Cristianismo evangélico: da exclusão à construção de um espaço social em Portugal, numa convergência estratégica com o republicanismo

As origens do protestantismo em Portugal: uma comunidade ostracizada

O movimento protestante em Portugal resultou de uma missionação evangélica[10] oitocentista, segundo um figurino importado, ou seja, não surge de uma dissidência endógena. Nesse sentido, a entrada dos movimentos de cariz protestante em Portugal não se deveu à Reforma[11] e a influência da mesma só veio a sentir-se muito tarde, nomeadamente no século XVIII e, sobretudo, a partir dos alvores e ao longo do século XIX.

O cristianismo protestante implementou-se em Portugal por intermédio das missões estrangeiras, mas também através dos estrangeiros que visitavam e viviam em Portugal, conforme nos afiança Eduardo Moreira:

Influência de visitantes estrangeiros, por maior vigilância dos “moscas” e de seu chefe, e da Inquisição esterilizadora, deve-se ter sentido, em conversas discretas, em testemunho comparativo, no simples facto de se verificarem outras existências outras afirmações, outras maneiras, outras crenças. … Consentira o governo, tradicionalista e pró-romano, no estabelecimento do cemitério alemão em Lisboa em 1761, e o britânico em 1794. Chamara, decerto por necessidade, como já tinha feito noutras ocasiões anteriores, de crise também, instrutores militares holandeses, ingleses, alemães, suíços, entre os quais não podia evitar que viessem muitos professores reformados.[12]

Diga-se de passagem que, até meados do século XIX, essa influência era sobretudo britânica,[13] em aspetos como a logística e as finanças. A partir do final da centúria de oitocentos e inícios do século XX, a influência passou a ser maioritariamente de brasileiros e americanos.[14]


[10] A nossa utilização dos termos “evangélico”, “protestante” ou “reformado” pode fomentar a priori alguma celeuma num certo ambiente historiográfico, que prima pelo distanciamento de juízos de valor em relação a católicos e protestantes. Nestes moldes, neste trabalho científico aplicaremos de forma indistinta os termos em causa, em função da conceptualização dos documentos e das fontes que versam as origens evangélicas, dado que são aplicados sempre como sinónimos.

[11] Como se sabe, na base desse movimento reformador esteve a pessoa de Martinho Lutero, que se opôs veementemente às práticas e a alguns dos dogmas perpetrados pela Igreja Católica Romana, subjacentes às suas Noventa e Cinco Teses. Por opção metodológica e em conformidade com a temática, não iremos tecer considerações sobre o mentor e os desenvolvimentos do movimento da Reforma. Apesar disso, convém frisarmos que a definição negativa de “protestante” não surgiu como autodefinição, muito pelo contrário, tratando-se de uma rotulagem feita por elementos externos e inimigos ao movimento. Assim foi para caracterizar os príncipes das cidades alemãs, que, em 1529, recusaram ratificar o Édito imperial de Worms, que responsabilizava e culpava Martinho Lutero. O conceito de “protestante” comporta dois sentidos: um de valor negativo, na medida em que faz a distinção em relação a uma cultura religiosa hegemónica, e um de valor positivo, visto tratar-se de uma afirmação de índole religiosa específica, centrada numa espiritualidade evangélica como meio de salvação (R. M. Leite, op. cit., p. 55).

[12] E. Moreira, Vidas Convergentes,1958,p. 57.

[13] Facto que associou o protestantismo à desnacionalização, numa deriva efervescente, que vinha do Ultimatum inglês, de 1890, visando o controlo das zonas coloniais portuguesas.

[14] L. A. Santos, op. cit., p. 416.

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