À semelhança do republicanismo e, mais tarde, da própria República, os protestantes procuravam retirar o monopólio do ensino, da cultura e da mundividência, que na altura pertencia à religião católica. Nessa luta por espaço e afirmação, numa conjuntura desfavorável aos protestantes ao nível das liberdades, os jornais, as revistas, os livros, os opúsculos, os folhetos e os panfletos foram cruciais na difusão dos ideais religiosos protestantes[35]. Estes constituiam mais um vaso comunicante com os auspícios das hostes republicanas, que faziam dessas vias meios privilegiados de propaganda.
Nesta lógica convergente com o ideário republicano, os protestantes faziam conferências, grupos de debate e atividades físicas, num quadro restrito de liberdades. A instituição que melhor encarnou esse princípio foi a União Cristã da Mocidade (UCM),[36] fundada em 1894, no Porto, e em 1898, em Lisboa. Esta associação filantrópica (uma das ideias caras ao republicanismo era o associativismo) foi fundada por Alfredo Henrique da Silva, um destacado responsável político republicano do Porto, que aliou as questões espirituais às patrióticas, cheias de similitudes entre protestantes e republicanos. Essa simbiose é manifestamente evidente neste parágrafo de sua lavra:
O bom republicano deve ser sinónimo de bom patriota: … o meu patriotismo não só tem saído quente e fervoroso nos milhares de conferências e discursos que tenho feito em todo o país, mas sempre o tenho mostrado por factos. Reconhecendo que o cancro do analfabetismo é o que tirava a vitalidade ao meu país, desde os meus tempos de estudante que me dei de alma e coração e por todas as formas ao derramamento da instrução. Fui o fundador, em Portugal, das Uniões Cristãs, para a educação integral da mocidade; criei aulas noturnas e ensinei gratuitamente milhares de operários e empregados do comércio e iniciei no meu país as conferências populares de vulgarização científica, com projeções luminosas, trabalhando ao mesmo tempo em tudo o que representava progresso e desenvolvimento para Portugal.[37]
Pode-se afirmar, sem qualquer hesitação, que Alfredo Henrique da Silva representou fielmente a convergência entre protestantes e republicanos, que permitiu a construção de uma plataforma comum, para que os protestantes excluídos alcançassem a liberdade almejada de culto tão propalada e difundida pelo ideário republicano. Na esteira da convergência entre cristãos reformados e o republicanismo, houve da parte desse movimento político uma deriva idêntica ao protestantismo na realização de manifestações e de cortejos, bem como de comícios e de conferências, no último quartel de oitocentos, numa tentativa de afirmação e de legitimação, tal como os cristãos evangélicos.[38] Por fim, os protestantes portugueses tiveram um intervencionismo social em atividades caritativas, apesar da desigualdade de tratamento em matéria de liberdade.
[35] V. Neto, op. cit., 234.
[36] Os quatro vetores da UCM foram, no plano físico, a ginástica, o pingue-pongue, o basquetebol, os banhos gratuitos, o escutismo, o passeio; na vertente intelectual, a instrução primária, especial e noturna, as bibliotecas, as conferências e as aulas de música; no âmbito social, as festas dos ardinas, distribuição de prémios e de roupa; na área espiritual, as reuniões bíblicas, as preleções morais, as conferências e as reuniões de oração (E. Moreira, Vidas Convergentes, 1958, p. 350).
[37] A. H. da Silva, O Monstro da Escravatura: A Minha Defesa na Campanha Levantada a propósito da Publicação do Folheto Alma Negra, 1913, p. 13.
[38] D. Ferreira, “Partido Republicano Português”, 2000, p. 301.