Autor: Pr. Samuel Antunes
Data: Maio 2019
RESUMO
Ao longo dos anos as diversas comunidades cristãs têm sido olhadas como uma comunidade do livro, mas qual a razão de não terem um livro igual para todos? Seria esta uma inovação oriunda na reforma ou de origem anterior? A minha abordagem terá o seu foco nos diversos olhares para esta mesma questão ao longo dos anos, tentando perceber pelo menos até ao concílio de Trento, a forma como eram vistos estes livros.
INTRODUÇÃO
Ao longo dos anos, os apócrifos têm recebido uma grande importância quando se procuram abordar as diferenças entre as mais diversas frações cristãs. Será que esta questão tem mesmo a importância que alguns lhe dão ou que pelo menos procuram aparentar? Procurarei encontrar as fontes da divergência onde se baseiam estas diferenças. Ao longo dos anos as diversas comunidades cristãs têm sido olhadas como uma comunidade do livro, mas qual a razão de não terem um livro igual para todos? A importância dos escritos sagrados, enquanto orientadores desta comunidade de comunidades, não têm sido um elo de ligação, mas antes um fator de discórdia. Mas será que foi esta a realidade desde o início da igreja cristã? Terá sido uma inovação dos tempos da reforma que se prolonga até aos dias de hoje? Ao que parece, a História deixa-nos a ideia de um canon fechado como fruto da necessidade de defesa das heresias de Marcião (século II)[1]. Homens como Brakemeier procuram dissipar esta divergência ao afirmar: “A diferença no número de livros do AT não tem força para dividir o corpo de Cristo. Jesus usava o AT hebraico, a comunidade helenística o AT Grego, sem que nisto se visse um conflito”[2], contudo esta discórdia tem sido, ao longo dos anos, fraturante entre a cristandade. Alguns grupos de cristãos procuram um ponto intermédio entre o aceitar e o rejeitar este grupo de livros: “os luteranos e anglicanos permitiam que fossem lidos na igreja apenas como ‘exemplo de vida e ensino de boas maneiras’ mas não como regra de fé”[3]. Se é certo que todos veem como canónicos a maioria dos textos do Antigo Testamento, existe, no entanto, um pequeno grupo de escritos capaz de agitar as águas. Neste pequeno trabalho, proponho-me encontrar os pontos de desvio para que existam vários canons dentro do mundo cristão, observando de perto as divergências no Canon do Velho Testamento. Quanto aos apócrifos do Novo Testamento não me debruçarei sobre eles, apesar de que são uma infinidade. Contudo, não fazem parte desta disputa, ainda que o fizeram no passado.
[1] Cf. Olson, 2004, p. 104
[2] Cf. Brakemeier, 2015
[3] minha tradução de:“the Lutherans and Anglicans allowed them to be read in Church only ‘for example of life and instruction of manners’ but not as part of the rule of faith…” (Bruce, 1954, p. 19)