A DIVERSIDADE DO CANON NO  MUNDO CRISTÃO

A DIVERSIDADE DO CANON NO MUNDO CRISTÃO

Quanto aos apócrifos, Lutero não os rejeitou, antes colocou-os à parte no final do Velho Testamento, “apesar de não definir os limites do Canon do Velho Testamento, Lutero deu indicações de que os apócrifos estavam separados e eram distintos das Escrituras”[57]. Após algumas edições em diversos lugares e em diversas línguas nestes moldes, os livros apócrifos acabaram mesmo por ser rejeitados. Apesar de João Calvino ter uma posição muito idêntica à de Lutero, os seus sucessores tiveram uma postura diferente, não apenas consideraram os apócrifos inferiores, como os consideraram não canónicos e por isso retiraram-nos das Escrituras. “É essa doutrina, recuperada do judaísmo pelos primeiros calvinistas, que se espalhou virtualmente por todo o protestantismo, fortalecendo a sua posição dogmática contra o catolicismo, que temos aprendido a aceitar como a doutrina cristã da inspiração da Bíblia”[58]. A primeira Bíblia a ser impressa sem os apócrifos foi a Bíblia de Genebra, traduzida a partir do grego e hebraico por reformadores ingleses[59]. A versão King James veio a retirá-los das suas Bíblias a partir de 1629 e cerca de cem anos mais tarde voltou a imprimi-los, mas separadamente[60].

De forma genérica, apesar da turbulência causada pelos calvinistas no final do século XVI e de todo o século XVII o mundo protestante ter aceite o cânon judaico, contudo, como escreveu Coimbra, as

grandes perguntas que se levantam ao abordarmos a história da constituição do cânone no contexto da génese e do desenvolvimento das teologias emergentes no processo global da Reforma protestante, colocam‑nos diante da enorme complexidade de discernir as influências e as motivações[61].

O concílio de Trento

Apesar do concílio de Trento, na sua sessão IV, que teve lugar a 8 de abril de 1546,[62] ter legislado acerca dos livros que a Igreja Católica consideraria canónicos a partir de então, esta não foi uma deliberação de grande peso pois apenas se limitou a aceitar o que já era aceite pela Igreja Católica através da Vulgata Latina, obra efetuada por S. Jerónimo durante o fim do século IV e princípio do século V. O seu peso numa reação à reforma protestante, foi mais na imposição de sanções e de reafirmação da posição católica do que na seleção dos livros, até porque inicialmente não foram retirados das Bíblias protestantes que começaram a surgir nos diversos vernáculos um pouco por toda a parte, apenas foi questionado o seu valor.


[57] Miller & Huber, 2006, p. 174

[58] Minha tradução de: “It is this doctrine, appropriated by early Calvinists from Judaism, that spread virtually throughout Protestantism, strengthening its dogmatic stance against Catholicism, that we have learned to accept as the Christian doctrine of the inspiration of the Bible” (Sundberg, 1975, p. 371)

[59] Cf. Mein, 1972, p. 57

[60] Cf. Miller & Huber, 2006, p. 175

[61] Coimbra, 2011, p. 216

[62] Concílio de Trento, 1546

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15

× Featured Image