A DIVERSIDADE DO CANON NO  MUNDO CRISTÃO

A DIVERSIDADE DO CANON NO MUNDO CRISTÃO

O Padre Carreira das Neves acrescentou que

os textos bíblicos de Qumran levam-nos a concluir, como vimos, que naqueles tempos não existia um Canon fixo da Bíblia Hebraica. No entanto, os textos referem muitas vezes, de modo direto ou indireto, A Lei (O Pentateuco) e os Profetas (…)[42].  

A inexistência de um canon fixo, de caráter rígido, transporta-nos para a compreensão do judaísmo de forma plural que nos surge nas páginas do Novo Testamento e que era bem mais diversificado que a polarização entre os fariseus e os saduceus. As escolas rabínicas tinham grande influência naqueles dias, sendo, por vezes, fatores fraturantes, numa sociedade onde as instituições civis já eram débeis dado a falta de um rei que as unificasse e do omnipresente interesse de Roma.

De forma parentética gostava de acrescentar que o conceito que temos hoje construído dos escritos sagrados, como um livro, a Bíblia, era inexistente pelo menos até ao aparecimento do códex, que surge já na nossa era. Até então era utilizado o rolo pelo que por ser volumoso, dispendioso e de difícil manuseamento, os escritos funcionavam de forma individualizada, fazendo com que cada um dos livros fossem tidos como porções avulsas. É o códice, ou códex, com a capa inicialmente em madeira, que vem trazer este agrupar de escritos. Assim, hoje pensamos na Bíblia como uma unidade de forma bastante mais indutiva do que nos tempos em que se procurava separar o que era espúrio do que era canónico. “A associação entre o códice e o cristianismo é cada vez mais apoiada pelas evidências arqueológicas. O texto cristão, datado  aproximadamente do século III em diante, é consistentemente encontrado em fragmentos do que eram evidências dos códices”[43].

As posições dos pais da igreja

Pensar em canonicidade nos primeiros séculos da igreja era pensar em heresias que os assolava e numa infindável lista de livros do Novo Testamento que muitos procuravam que fossem canonizados numa igreja heterogénea e onde a heresia, sobretudo sobre Jesus, era real e diversa. “As heresias incomodavam, obviamente, a igreja durante todo o século IV e V. Os assuntos religiosos eram importantes e muito poucos eram os cristãos que os entendiam suficientemente bem para formular opiniões que eram, muitas vezes, histericamente intransigentes”[44]. Como já aludi anteriormente, a heresia de Marcião levou a que num mecanismo de defesa, a igreja procurasse que se tornasse público e bem evidente quais os livros que poderiam ser tidos por canónicos ou talvez de uma forma diferente, quais os livros que poderiam ser reconhecidos pela igreja e os restantes.


[42] (Neves, S/d.)

[43] Minha tradução de: “The association between the codex and Christianity is increasingly supported by archaeological evidence. Christian text dating from about the third century onwards are consistently found in fragments of what were evidently once codices.” (Hamel, 2001, p. 48)

[44] Nicholas, 1999, p. 57

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