A DIVERSIDADE DO CANON NO  MUNDO CRISTÃO

A DIVERSIDADE DO CANON NO MUNDO CRISTÃO

Alguns textos bíblicos mais tardios do Velho Testamento foram escritos nesta língua que os judeus incorporaram no cativeiro Babilónico e Medo-persa. O grego Koiné era a língua comum do mundo helenístico, sem dúvida, o idioma mais abrangente. Se levarmos em conta a realidade nos dias de Jesus, altura em que existia uma grande comunidade judaica espalhada pelo império romano perceberemos a importância que tinha o grego Koiné e o porquê de ser a língua do Novo Testamento. Grande parte das citações do Velho Testamento e no Novo evidenciam que a Septuaginta, em grego, foi a sua fonte, mostrando a importância que esta versão helenista tinha nos dias de Jesus mesmo para o estudo e compreensão das Escrituras. Nas contas de Richard, em Jerusalém habitariam cerca de cinquenta e cinco mil pessoas, mas que os “judeus constituíam uma minoria significativa no império romano, provavelmente cerca de dez por cento dos sessenta milhões de pessoas que ali viviam nessa época”[16]. Ficamos assim com a ideia de que existiriam espalhados pelo império uma população de cerca de seis milhões de judeus, todos eles falantes de uma língua comum, o grego koiné, habitando muitas vezes em comunidades coesas, dentro de várias cidades ou simplesmente dispersos por pequenos povoados. Os documentos que existiam, enquanto escritos sagrados, estavam nestas três línguas, repartidos por muitos livros soltos e até partes de livros. O seu objetivo era terem nas suas comunidades uma cópia dos seus textos sagrados. “Podemos pensar também que, apesar de os judeus estarem concentrados em comunidades maiores na diáspora e adotarem uma língua estrangeira, tentaram também traduzir a Bíblia Hebraica para os seus próprios idiomas”[17]. Estudar a evolução destas cópias de manuscritos e suas traduções é um processo complexo. Durante algum tempo atribuiu-se ao concílio da Jâmnia (90 d.C.) o momento decisivo para o estabelecimento do cânon do Velho Testamento, hoje, no entanto, não se vê um tempo como decisivo por completo, mas assistimos a uma seleção que já começou a ser feita, pelo menos, no período macabaico e que se prolonga no tempo até ao final do primeiro século. “Era crença dos judeus dos tempos interbíblicos de que a revelação se encerrou em Esdras, mas aguardavam um reavivamento profético com a vinda do Messias”[18]. Uma outra tradição rabínica atesta que os livros de Ageu, Zacarias e Malaquias, que abordam o regresso dos judeus a Sião e a reconstrução do templo, foram os últimos a serem inspirados pelo Espírito Santo. Ou seja, colocam o final do cânon dos livros do Velho Testamento antes do fim do domínio Persa[19].


[16] Richards, 2007, p. 253

[17] Minha tradução de: “We might also think that wherever the Jews had been concentrated in bigger communities in the Diaspora, and had adopted a foreign language, they had also tried to translate the Hebrew Bible into their own languages” (Merino, 1994, p. 53)

[18] Soares, 2009, p. 29

[19] Wigoder, 1993, p. 158

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