A DIVERSIDADE DO CANON NO  MUNDO CRISTÃO

A DIVERSIDADE DO CANON NO MUNDO CRISTÃO

Apócrifo

Um segundo conceito importante é o de apócrifo que Douglas define como “um termo técnico concernente à relação de certos livros para com o Cânon do Antigo Testamento, no sentido de apesar de não serem aprovados para ensino público, não obstante têm valor para o estudo e edificação particulares”[10]. Por vezes, este conceito é focado na sua origem, onde não está em causa o que se pensa do texto, mas de onde surgiu; “Chamados de Apócrifos, ou seja, os livros encontrados no grego, mas não encontrados no cânon hebraico do Antigo Testamento,…”[11].  O termo parece ter a sua origem em Jerónimo, como referiu Campbell: “(…) geralmente referidos como apócrifos, um termo cunhado primeiramente pelo antigo erudito cristão Jerônimo num sentido pejorativo (…)”[12]. Podemos acrescentar o pensamento dos pais da igreja que nos é trazido por Mara

Entre os pais da igreja são considerados como apócrifos vários escritos: aqueles cuja origem é desconhecida e cuja atribuição a um ou outro autor é falsa, aqueles que contêm juntamente informações uteis e erros doutrinários, aqueles que não são aceites para leitura em público na igreja porque não são canônicos (…)[13].  

Apesar dos livros apócrifos não terem o valor dos livros canónicos, é comummente aceite que muitos deles têm um valor histórico, imprescindível à compreensão da narrativa histórica contida nos escritos sagrados e por isso muitos, ainda hoje, os utilizam para tal. “Este valor histórico foi considerado secundário pela maioria dos pais da igreja, dado que a sua principal preocupação era compreender e transmitir a revelação contida nas Escrituras”[14].

A posição Judaica

Uma vez que em pauta está o estudo do Canon do Velho Testamento e que este chega até ao cristianismo via judeus e consequentemente via judaísmo, perceber a posição judaica e a respetiva ideia que tinham dos seus próprios escritos poderá constituir-se num bom ponto de partida. As três línguas que nos importam para este estudo é o hebraico, o aramaico e o grego Koiné. O hebraico foi a língua em que a maioria dos textos do Velho Testamento foram escritos. Nos dias de Jesus era pouco falado, mas era a língua do culto religioso no templo e do texto das Escrituras, sobretudo da Torá. Só uma minoria mais culta e ligada com o estudo das Escrituras teria acesso a este idioma de forma abrangente[15]. O aramaico, nos dias de Jesus, era a língua do dia a dia do povo que vivia na Palestina.


[10] Douglas, 1999, p. 91

[11] Minha tradução de: “called Apocrypha, i. e. the books found in the Greek but not in the Hebrew Old Testament canon…” (Schodde, 1890, p. 217)

[12] Minha tradução de: “…usually referred to as the Apocrypha, a term first coined by the ancient Christian scholar Jerome in a pejorative sense…” (Campbell, 2002, p. 40)

[13] Minha tradução de: “Chez les pères de l’Eglise sont considérés comme apocryphes un certain nombre d’écrits: ceux dont l’origine est inconnue et dont l’attribution à tel ou tel auteur est fausse, ceux qui contiennent à la fois des données utiles et des erreurs doctrinales, ceux qui ne sont pas acceptés pour la lecture publique dans la église parce qu’ils ne sont pas canoniques…” (Mara, 1990, p. 180)

[14] Minha tradução de: “Cette valeur historique a été jugée secondaire par la plupart des Pères, car leur principal souci était de saisir et de transmettre la révélation contenue dans l’Écriture” (ibid. p. 184)

[15] Cf. Osborne, 2009, p. 414

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