A DIVERSIDADE DO CANON NO  MUNDO CRISTÃO

A DIVERSIDADE DO CANON NO MUNDO CRISTÃO

“Os judeus de Alexandria abriram as suas mentes para a cultura e para a filosofia grega, apropriando-se de novas ideias e explicando as suas Escrituras de acordo comconceções mais abrangentes da presença divina; tal adaptação desviou o texto do sentido original”[36].

Sem dúvida que até à descoberta dos papiros do Mar Morto os textos mais importantes e que nos levavam mais próximo da origem eram os textos Massoréticos, a Septuaginta e o Pentateuco Samaritano. A LXX foi a Bíblia do Judaísmo helenista e dos apóstolos cristãos dos primeiros cinco séculos (…)”[37].

Os papiros do Mar Morto descobertos em meados do século vinte, em onze cavernas em Qumran, trouxeram de novo à luz do dia cerca de novecentos antigos manuscritos, entre os quais uma grande quantidade de documentos religiosos como partes do Velho Testamento. A comunidade de Qumran era uma comunidade de essénios que viviam um judaísmo à parte do templo. A importância destas descobertas é dar-nos a compreensão que esta comunidade teria acerca do valor dos escritos sagrados, três séculos antes de Cristo.

Nestas descobertas encontraram-se partes dos textos sagrados em três línguas: hebraico, aramaico e grego. A proximidade da Palestina fez com que os documentos em grego fossem em menor número que os restantes e são cópias do texto da Septuaginta, mostrando como estes documentos foram largamente copiados e difundidos[38].

Ao contrário de textos encontrados noutras épocas, os textos da era intertestamentária eram copiados com uma liberdade bastante grande para os copistas e tradutores, que estariam corretos desde que escrevessem a mesma ideia.

Os Manuscritos de Qumran da Escritura, e mais ainda a Regra da comunidade e o Manuscrito da Guerra, indicam que a diversidade, e não a uniformidade, reinavam naquele preciso momento, e que os redatores-copistas se sentiam à vontade para melhorar a composição que estavam a reproduzir[39].

Uma das grandes vantagens das descobertas de Qumran que nos é dada por Campbell[40] é a confirmação das várias formas de judaísmo do segundo templo, completamente diferentes umas das outras e capazes de interpretar de forma diferente a Torá, ou melhor a Tanak[41]. Para além dos livros apócrifos da Septuaginta aparece um grande conjunto de interpretações da lei e vários textos sobre literatura religiosa.


[36] Minha tradução de: “The Alexandrian Jews opened their minds to Greek culture and philosophy, appropriating new ideas, and explaining their Scriptures in accordance with wider conceptions of the divine presence; though such adaptation turned aside the original sense. (Davidson, 1877, p. 44)

[37] Soares, 2009, p. 47

[38] Cf. Vermes, 2006, p. 447

[39] Ibid., p.38

[40] Cf. Campbell, 2002, p. 113

[41] Tanak é o conjunto de três tipos de literatura hebraica, que hoje incorpora as Bíblias cristãs: A Torá (Pentateuco), os Profetas e os Escritos. Esta palavra deriva da junção das três letras hebraicas que iniciam cada uma destas palavras.

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