A DIVERSIDADE DO CANON NO  MUNDO CRISTÃO

A DIVERSIDADE DO CANON NO MUNDO CRISTÃO

No período Helenístico, Ptolomeu II (285-246 a.C.) patrocinou a tradução de documentos hebraicos para o grego com a finalidade de colocá-los na biblioteca de Alexandria. Esta tradução, conhecida como Septuaginta, ou LXX, é uma peça fundamental quando se quer perceber a formação do cânon do Antigo Testamento. O Pentateuco terá sido traduzido por setenta e dois anciãos, constituindo para alguns uma probabilidade e para outros uma lenda. O que é certo é que foi traduzido por homens enviados de Jerusalém ao Egipto para o efeito. O trabalho completo da Septuaginta só terá sido concluído no século primeiro antes de Cristo, ou como aludiu Hamel “A tradução para o grego desenvolveu-se ao longo de várias gerações (…)”[31]. O dilatar no tempo desta tradução, ou talvez será mais correto afirmar do conjunto de traduções, fez com que o conjunto abrangente de escritos se extrapolasse para um conjunto heterogéneo de conceitos teológicos. “A LXX revela como os rabinos da época da tradução de cada livro entendiam o texto, eles eram também teólogos, além de tradutores, como afirmou Rudolf Kittel, para quem não se trata de tradução, mas de um comentário teológico”[32]. Esta multiplicidade já pouco tem a ver com a tradução original, restrita à Torá, mencionada por Flávio Josefo que fala de um trabalho feito em setenta e dois dias e concluído de tal forma que não deveria tornar a ser alterado, o que, de alguma forma, nos leva a uma dedução de aprovação canónica.

Terminada a obra, Demétrio reuniu todos os judeus e leu-lhes a tradução na presença dos setenta e dois intérpretes. (…) Eliseu, o sacerdote, o mais idoso dos intérpretes e os magistrados constituídos para governo do povo pediram em seguida que nada mais se viesse a mudar naquela obra, que fora concluída com tão raro êxito. Essa proposta foi aprovada, dando a esse ato força de lei (…)[33]

A Septuaginta para além dos livros aceites pela Bíblia hebraica incorpora um conjunto de outros escritos religiosos judaicos, alguns desses vieram a ser aceites como canónicos por alguns cristãos e rejeitados por outros. A este grupo ou lista de livros têm-se chamado de Canon Alexandrino. “Essa obra continha catorze livros apócrifos do Antigo Testamento; mas pelo menos para os judeus da dispersão, esses livros eram considerados Escrituras Sagradas”[34]. Os judeus espalhados pelo mundo de cultura grega, ficaram bastante dependentes da tradução de Alexandria. No entender de Douglas, teriam “um conceito mais lato sobre o canon do que os judeus da Palestina”[35]. A influência grega não passa despercebida nesta tradução.


[31] Minha tradução de:“the translation into Greek must have envolved over several generations…” (Hamel, 2001, p. 46)

[32] Soares, 2009, p. 49

[33] Josefo, 2007, p. 547

[34] Champlin, 2001, p. 629. vol. I

[35] Douglas, 1999, p. 252

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