A DIVERSIDADE DO CANON NO  MUNDO CRISTÃO

A DIVERSIDADE DO CANON NO MUNDO CRISTÃO

Depois de analisar a Septuaginta e também a Héxapla de Orígenes, escolheu como fonte por excelência os manuscritos hebraicos. “Dos livros deuterocanónicos, que considerava apócrifos, só verteu o de Tobias e de Judite, do Aramaico”[53].

Agostinho de Hipona

A influência de Agostinho no seio da igreja foi bem superior à duração da sua vida. O seu legado passou pelos anos sem que se desgastasse. No que concerne ao cânon das Escrituras, a sua aceitação e defesa dos apócrifos foi tão forte que nem a força de um homem com o conhecimento da Bíblia e originais, como Jerónimo, conseguiu contrariar esta influência.

A autoridade de Agostinho levou à inclusão dos Apócrifos do Antigo Testamento no Cânon, pelo Concílio de Hipona, 393 e de Cartago, 397, mas a igreja não estipulou nenhuma sanção de tipo geral para isto, até ao Concílio de Trento, em sua quarta sessão, onde foi estipulada a sanção. Mas o estabelecimento do cânon do Antigo Testamento pertence propriamente a Israel, não à Igreja Cristã, que a recebeu de Israel. Encontramos, portanto, a verdadeira visão da questão em Jerónimo, que limita o cânon aos escritos hebraicos, pois somente estes foram aceitos e mencionados por nosso Senhor e seus apóstolos[54].

Agostinho foi, sem dúvida, um contributo de peso para que os apócrifos fossem aceites. A sua posição foi clara, uma vez que “(…) deu total apoio à Septuaginta, a antiga tradução grega da Bíblia Hebraica, acreditando que Deus a tivesse inspirado e que era, inclusive, superior ao texto hebraico”[55].

O impacto da Reforma protestante

Lutero era um lutador contra um conjunto de ideias que considerava erradas, uma delas era o valor da tradição e dos dogmas. Não era uma ideia apenas de Lutero. Uns anos mais tarde Dobschutz da universidade de Halle escreveu “(…) a ideia de canonicidade que dominou a teologia durante séculos foi recentemente modificada ou até mesmo abandonada”[56]. Esta ideia era a de uma liberdade e de uma crítica livre de cada livro por si, algo que Lutero já tinha feito de forma informal durante as suas longas discussões evidenciando a antipatia que nutria pela epístola de Tiago.


[53] Carpinetti, 2003, p. 18

[54] Minha tradução de: “The authority of Augustine occasioned the reception of the Old Testament Apocrypha into the Canon, by the Council of Hippo, 393, and of Carthage, 397, but there was no churchly sanction of a general kind to this, until the Council of Trent, in its fourth session, gave it its sanction. But the establishment of the Old Testament Canon properly belongs to Israel, not to the Christian Church, which received it from Israel. We find the true view of the matter therefore in Jerome, who limits the Canon to the Hebrew writings, as these alone were accepted and appealed to, by our Lord and his Apostles.” (Weidner, 1890, p. 251)

[55] Miller & Huber, 2006, p. 110

[56] Minha tradução de: “…the idea of canonicity which dominated theology for centuries has in recent times been modified or even abandoned” (Dobschütz, 1915, p. 416).

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