A DIVERSIDADE DO CANON NO  MUNDO CRISTÃO

A DIVERSIDADE DO CANON NO MUNDO CRISTÃO

Parece que esse problema pontual tenha formado regra para o futuro e se tenha adotado a partir de então o conceito de canonicidade.

Esta forma leva logo um rumo inicial e depois segue em diferentes direções. As igrejas primitivas, que gozavam de uma grande liberdade e autonomia umas das outras, transportaram para dentro de portas este rastreio sobre os escritos que deveriam ser aceites e os que deveriam ser rejeitados. É claro que a influência judaica era muito significativa no seio da igreja. No entanto, os judeus também não eram, neste momento, um grupo uniforme, mas, antes um grupo de grupos, uns mais helenizados que outros, o que alterava também o tipo de escrituras do Velho Testamento que tinham, quer dependessem mais da Septuaginta ou de escritos hebraicos ou aramaicos, quer estivessem mais ligados com os escritos da Palestina ou da Babilónia. Por outro lado, “Os primeiros pais escreviam em grego e usavam a Bíblia grega, pois quase todos eles não dominavam o hebraico. Dada esta restrição; eles naturalmente consideravam as partes da Bíblia igual, citando apócrifos e canônicos da mesma forma”[45].

Olhando para a igreja primitiva, que cresceu de forma bastante rápida e se espalhou por muitos lugares, foi constituída por igrejas locais com culturas regionais assimiladas pelos diferentes grupos. “Os primeiros pais gregos reconheceram, em teoria, que esses livros [apócrifos] não estavam no mesmo nível canônico que os livros da Bíblia hebraica, mas, na prática fizeram pouca distinção entre as duas classes de livros”[46]. As igrejas latinas não fizeram nenhuma distinção, antes aceitaram-nos como parte integrante do Canon.

As opiniões são tantas que nos perderíamos aqui em argumentação. Por exemplo Justino, o mártir, defende que

Ele [Jesus] não nos deixou nenhuma lista de livros canônicos; mas temos algo dele, dado que ele nunca cita nenhum dos livros apócrifos, nem faz qualquer menção a eles; e enquanto acusava os judeus, contra quem ele escreveu, de muitas outras coisas, e até de alterar ou omitir alguns versos das Escrituras, ele nunca os acusa de rejeitar um único livro inteiro das Escrituras[47].

Como veremos a partir de agora as diferenças serão marcadas pelas fontes utilizadas e tidas como as mais fiáveis para as traduções da Bíblia. Em alguns manuscritos, os apócrifos irão aparecer a par da restante escritura dos judeus, noutros estará separada e noutros estará ausente. Agora resta entender os argumentos lançados de todos os lados para incluir ou excluir tais escritos.


[45] Minha tradução de: The early fathers, who wrote in Greek, used the Greek Bible, as almost all of them were ignorant of Hebrew. Thus restricted; they naturally considered its parts alike, citing apocryphal and canonical in the same way. (Davidson, 1877, p. 53)

[46] Minha Tradução de: “The early Greek Fathers acknowledged in theory that these books were not on the same canonical level as the books in the Hebrew Bible, but in practice they made little distinction between the two classes” (Bruce, 1954, p. 20)

[47] Minha tradução de: “He [Jesus] has left us no list of Canonical Books; but we have something from him, in as much as he never quotes any of the apocryphal books, nor makes any mention of them; and while accusing the Jews, against whom he wrote, of many other things, and even of altering or leaving out some verses of Scripture, he never accuses them of rejecting any whole books of Scripture.” (Ancient Testimonies about the Apocrypha, 1854, p. 2)

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15

× Featured Image