O culto a Deus: um caminho, dois sentidos

O culto a Deus: um caminho, dois sentidos

2.2 Tradição e Liberdade

A segunda polarização abordada por Stott é a dupla: Tradição e Liberdade. E, seguindo as pisadas deste autor, será o mesmo que mencionar Conservador e Radical. Transpondo para o culto a Deus, é fácil de identificar na liturgia o tipo de Igreja e/ou de liderança da mesma. Distingue-se facilmente a adoração formal, rígida e contida, da adoração exuberante. Na Igreja haverá um tempo para todas as coisas. Para louvar a Deus de forma serena, contemplativa; e também para cultuar com alta voz e com atroada. A presença de Deus não é mais forte ou menos forte segundo o som que existe. Ele é real, sempre. A Sua voz pode ser mansa e suave, ou como o som de muitas águas.

Conservador será a caraterística de alguém resistente a mudanças, preso às tradições e que procura preservar os hábitos que recebeu dos anteriores a si. Radical será a caraterística de alguém que peleja por mudança, e que anseia por ter a liberdade de transformar. Stott vai mais longe afirmando que são as “(…) pessoas que estão em rebelião contra o que é herdado do passado e estão, por isso fazendo agitações por mudanças.”

Sem dúvida alguma o evangelho, a revelação divina, as doutrinas basilares da salvação são imutáveis, e nisso a Igreja deve permanecer conservadora, como “guardiã fiel do único Evangelho eterno” (idem) pois este é “imutável em verdade e autoridade”. O próprio Senhor Jesus se mostrou conservador ao afirmar que “(…) nem um jota ou um til se omitirá da lei…” (Mateus 5:18). Mas de alguma forma, deve haver uma sensibilização para um mundo em mudança, e esta vertiginosa. A forma de comunicar, não apenas os meios de comunicar, mas a própria forma mudou. A crescente inclinação para comunicar através da arte, das expressões, deve levar a Igreja não a mudar a sua mensagem, mas a forma como a transmite.

Ainda está presente na memória o missionário e autor Bruce Olson, na sua obra “Por esta cruz te matarei” referir a forma, que nas nossas mentes conservadoras e ocidentais de alguma maneira soou estranha, como para pregar a mensagem da salvação enquanto se balançava no topo das árvores, juntamente com um intérprete. Esta era a única forma daquele povo nativo prestar atenção à sua mensagem. Se não houver a liberdade para criar elos, construir as pontes, produzir a ligação entre emissor e recetor da mensagem, há um sério risco de perdermos esta geração.

Jesus, por outro lado, quebrou o conservadorismo ao falar com mulheres em público, ao chamar crianças para perto dele, ao insurgir-se contra o espírito religioso e farisaico da época. Criou pontes com os mais desprezados da sociedade.

Stott afirma que “(…) o perigo maior (pelo menos entre os evangélicos) é confundir cultura com escrituras, ser conservador e tradicionalista demais, estar cego a todas as coisas, na Igreja e na sociedade, que desagradam a Deus e que deveriam, portanto desagradar-nos…” Os cristãos hoje devem desenvolver uma aptidão especial para discernir o que não é passível de mudanças e o que deve ser mesmo alterado.

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