O papel do Espírito Santo no Antigo Testamento

O papel do Espírito Santo no Antigo Testamento

Introdução

O presente ensaio tem como objetivo mostrar o papel do Espírito Santo no Antigo Testamento através da análise dos textos principais que mencionam a ação do Espírito Santo quer nos homens quer no mundo físico, com o recurso à ajuda de diferentes obras escritas por vários teólogos sobre o assunto.

Este assunto é muito importante, visto que várias questões têm sido levantadas ao longo do tempo sobre o Espírito Santo. É verdade que no Novo Testamento o Seu Ministério na Igreja é mais fácil de identificar e gera mais consenso do que a Sua atividade no Antigo Testamento. Eu irei procurar responder a questões tais como: Será que o Espírito Santo era apenas uma força? O Espírito Santo é Deus? Como é que Ele agiu em diferentes pessoas e com que propósitos? Qual foi o papel que teve ao longo do Antigo Testamento?

Obviamente, devido ao tamanho limitado deste ensaio eu não poderei aprofundar muito cada uma das questões, mas procurarei apresentar um sumário daquilo que é essencial para nos ajudar a ter uma perspetiva geral sobre este assunto.

Em primeiro lugar é importante analisar o termo Espírito que vemos no Antigo Testamento, que corresponde à palavra hebraica ruah. De acordo com Kohler esta palavra é utilizada em quatro situações diferentes: 1º significa vento, ar em movimento, ou brisa; 2º significa espírito no sentido de sopro de vida; 3º esfera ou efeito do espírito e 4º espírito é a natureza e a possessão de Deus
. Contudo é difícil saber com certeza o número de vezes a que a palavra ruah se refere ao Espírito Santo no Antigo Testamento, porque nem sempre é fácil distinguir quando esse termo está a falar especificamente Dele. Esta palavra é mencionada cerca de 378 vezes, entre as quais apenas 25% das vezes se refere de facto ao Espírito Santo.

Vemos muitas vezes na Bíblia ruah ser usado como um agente nas mãos de Deus usado para diferentes propósitos (Sl. 148: 8; 104: 3; Is. 17:13, Gn. 8: 1; Ex. 14:21).

Também é importante notar que no Antigo Testamento também existem alguns livros que nunca mencionam o Espírito Santo, pelo menos de forma direta, como por exemplo: Levítico, Deuteronómio, Josué, Rute, Ester, Esdras, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão, Jeremias e Lamentações de Jeremias, Obadias, Jonas, Amós, Oséias, Naum, Sofonias e Habacuque.

Finalmente, gostaria também de deixar esta última nota em relação ao Espírito Santo, é que Ele aparece nos outros livros do Antigo Testamento com alguns destes diferentes nomes: O Espírito; Espírito de Deus (15 vezes), Espírito de Jeová (30 vezes), Espírito do Senhor, e Espírito Santo (apenas 3 vezes no Antigo Testamento – Salmo 51:11; Isaias 63:10, 11).

 

O Espírito Santo como Pessoa

Muitos teólogos negam a personalidade do Espírito Santo no Antigo Testamento, contudo, vemos que embora o Espírito Santo seja mencionado como Deus em ação e alguns versículos salientem particularmente o Seu poder e não a sua personalidade, também há várias passagens que nos mostram o Espírito Santo como uma pessoa. Ferguson diz “é claro através de várias referências bíblicas que ruah denota mais do que simplesmente a energia de Deus; descreve uma extensão do próprio Deus num compromisso ativo com a Sua Criação de uma forma pessoal.”

Ter personalidade significa possuir vontade, emoções e mente, por isso se no Antigo Testamento podermos provar que o Espírito Santo possui essas qualidades, isso significa que de facto Ele tem uma personalidade, e como consequência não se trata apenas de uma força ativa.

Vários teólogos têm lutado para encontrar estas provas bíblicas no Antigo Testamento, nomeadamente Walvoord e Wood, os quais nos seus livros mostram a dificuldade que tiveram para o fazer, contudo não foi impossível. Podemos começar por mostrar que o Espírito Santo tem mente ou intelecto quando Ele mostra as Suas capacidades nos diferentes versículos: Isaias 11: 2; 30: 1; 40: 13; 48: 16. O Espírito Santo também expressa emoções em Isaias 63:10, quando se entristece por causa do pecado. Finalmente, o Espírito Santo também mostra que Ele possui vontade: (Gn. 1: 2; Gn. 6: 3; Is. 34: 16; 59: 19; Zc. 4: 6) para livrar, para executar julgamentos, para capacitar os homens e para participar na Criação.

Por isso, podemos concluir que apenas uma força ativa nunca teria todas estas qualidades, as quais claramente pertencem a alguém que possui uma personalidade própria.

 

O Espírito Santo como Deus

De acordo com Routledge, “No AT a presença e actividade do Espírito Santo é identificada com a presença e actividade do próprio Deus (Sl. 51: 11; 143: 10; Ag. 2: 4-5; Zc. 4: 6)”

É verdade que é mais fácil provar a divindade do Espírito Santo através de textos do Novo Testamento, no entanto, existem várias pistas no Antigo Testamento que nos levam a chegar a essa conclusão.

Erickson apresenta alguns argumentos para defender a divindade do Espírito Santo, em particular o facto de que existe “(1) o conceito Hebreu de personalidade alargada (Jz. 14: 6, 19; 15: 4; 1.10:10), (2) referências no plural em relação a Deus (Gn. 1:26; 3:22), (3) ensinos acerca do Anjo do Senhor (Gn. 31: 11-13; Ex. 3: 2, 4), e (4) a natureza da unidade de Deus a qual inclui diversidade (Dt. 6: 4)”

Também vemos que em Isaias 63: 7-14 e Êxodo 33:14 a presença do Espírito no meio do seu povo era sinónimo da presença de Deus e que quando as pessoas pecavam e entristeciam o Espírito Santo, também era sinónimo de terem entristecido Deus. O Salmo 51: 11 também parece comparar a presença de Deus na vida de David com  a presença do Espírito Santo.

Vejam também, por exemplo o Salmo 139: 7-12, onde o salmista atribui ao Espírito Santo um atributo que apenas Deus possui: Omnipresença.

Podemos até ir um pouco mais longe e descobrir que algumas vezes o Novo Testamento menciona textos do Antigo Testamento que acabam por clarificar a divindade do Espírito Santo, porque onde está escrito Jeová no Antigo Testamento, no Novo Testamento fala do Espírito Santo (At. 28: 25-28 e Is. 6: 3-10; Hb. 10:15 -17 e Jr. 31: 31-34).

 

O Espírito Santo na Criação

O Espírito Santo é mencionado no primeiro capítulo de Génesis (Gn. 1: 2), onde diz que Ele se movia sobre as águas, como sendo a fonte de vida e de ordem na criação. É verdade que encontramos algumas objeções a esta ideia, em particular a nova exegese cristã levantou dúvidas se o texto bíblico está a falar do Espírito ou apenas do vento natural. Por exemplo, vemos que  Gerhard von Rad traduz ruah elohim como “tempestade de Deus,” mas outras traduções ainda mais radicais traduzem como o “vento todo-poderoso”.

Em Job temos a confirmação de que o Espírito Santo trabalhou na criação, quando lemos “pelo Seu Espírito ornou os céus”  (Jó 26: 13a ARC) e também em Salmos 33: 6 “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus; e todo o exército deles, pelo espírito da sua boca” e 104: 30 “Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra.”

O Espírito Santo também esteve envolvido na criação do homem, Génesis 1:26 e 2:7 diz que Dele veio o sopro de vida sobre o homem.

Na língua original o verbo em hebraico usado para criação é  bara, e de acordo com Brueggemann bara é “o termo mais majestoso para a Acão de Deus como Criador, o verbo não é usado para mais ninguém, a não ser Jeová, o Deus de Israel”, por isso, se o papel de criador é dado ao Espírito Santo, isso significa que Ele também é Deus. Em Génesis 1:26 vemos que Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, aqui o verbo é usado no plural, claramente mostrado que Deus estava a falar com alguém com as mesmas características que Ele tinha, mostrando-nos que Ele não estava a agir sozinho, mas existia mais alguém perto Dele envolvido na criação. Através da Bíblia entendemos que este versículo está a referir-se ao Filho e ao Espírito Santo. De facto, encontramos referência às três pessoas da Trindade como responsáveis pela Criação: Deus o Pai: Atos 4:24; Deus Filho: Jo. 1: 3; 1 Tim. 2: 5; Deus Espírito Santo: Sal 104: 30.

O Espírito Santo não apenas está na origem da Criação, mas também é a sua força de vida e o seu sustentador, como vemos neste Salmo: “Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras a respiração, morrem e voltam ao próprio pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl. 104.29-30, ver Is. 34.16; Jó 34: 14, 15). Também vemos no episódio registado em Ezequiel que foi o Espírito Santo que deu vida aos ossos secos no vale (Ez. 37: 1-14), e isto permite-nos compreender que Ele não apenas pode dar vida física, mas também vida espiritual e também renová-la.

 

O Espírito Santo como fonte de sabedoria e capacidade

Em várias histórias Bíblicas no Antigo Testamento nós vemos como o Espírito Santo deu sabedoria e capacidade aos homens em muitas diferentes atividades. Em Genesis 41:38 é o próprio Faraó a reconhecer que José tinha o Espírito de Deus, quando José foi capaz de revelar e interpretar os sonhos de Faraó. Apesar deste ser o testemunho de um pagão, nós vemos claramente na Bíblia como foi Deus que revelou o sonho a José e lhe deu a interpretação.

O livro de Êxodo mostra-nos o Espírito Santo como Aquele que capacita os homens e mulheres para a missão que Deus lhes deu para fazerem, Ele é Aquele que dá talentos naturais e capacidade para executar trabalhos específicos, nomeadamente no momento da construção do Tabernáculo, onde vemos Deus colocar o espírito de sabedoria sobre os homens para fazer as veste de Arão (Ex. 28:3); encher Bezalel com o Espírito de Deus, com sabedoria e entendimento e com toda a ciência para fazer todo o tipo de trabalhos manuais, e também encheu os seus colegas para o ajudarem (Ex.31: 2-6; 35: 30-35).

Se por um lado o Espírito Santo deu habilidade para realizarem trabalhos práticos, por outro lado Ele também deu sabedoria para os homens assumirem posições de liderança. Em Números 11:17, 25, 29  vemos que Moisés e os setenta anciãos foram cheios do Espírito para terem capacidade de liderar e julgar Israel. Moisés tinha o Espírito de Deus sobre ele, como nos confirma Isaías 63:11, e mais tarde o mesmo aconteceu ao seu sucessor Josué (27:18).

Em Juízes 3:10; 6:34 nós observamos que os juízes de Israel, nomeadamente Gideão, Otoniel, Jefté e Sansão foram cheios do Espírito Santo, e por Ele capacitados para realizarem o seu ministério. Ainda em alguns destes casos o Espírito capacitou-os com força física sobrenatural. Vemos o exemplo de Sansão que foi capaz de matar um leão, matar 30 homens, quebrar cordas e matar 1000 homens (Jz. 14: 6, 19; 15: 14, 15); Gideão que guiou o seu povo à vitória com apenas 300 homens e Jefté que liderou uma grande vitória e conquistou 20 cidades!

No caso dos Reis de Israel, nós vemos que Saul foi cheio do Espírito Santo (1 Sm. 10: 6, 10) para reinar sobre Israel, e um dos sinais de que o Espírito estava sobre ele foi através da unção com óleo feita pelo Profeta Samuel, como aconteceu com David alguns anos mais tarde (1Sm. 11: 6).

Por fim, nós vemos em Isaías referências ao Messias, que Ele seria cheio do Espírito Santo continuamente tanto para reinar como para julgar, para profetizar e proclamar a palavra de Deus (Is. 11: 1-3; 42: 1; 61: 1).

 

O Espírito Santo a proteger Israel

No livro de Números nós também vemos o Espírito mencionado no caso de Balaão (Nm. 24: 2). Esta situação ocorreu quando o Rei Balaque estava com medo de ser derrotado por Israel, porque ouviu dizer que quem os ajudava era o grande Deus, então ele queria encontrar uma forma de levar Israel a ser amaldiçoado pelo seu próprio Deus e para isso ele procurou um profeta pagão chamado Balaão. Esta passagem é difícil compreensão, no sentido de explicar como é que o Espírito falou através de um homem pagão, contudo nós vemos que foi para proteger Israel que Deus se revelou a este homem, de tal forma que ele acabou por reafirmar a mesma promessa que tinha sido dado a Abraão em relação ao Seu povo: “Benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem.”(Nm. 24: 9b) e assim em vez de Israel ser amaldiçoado, acabou por ser abençoado, facto que fez o rei Baraque ficar furioso.

Em outro caso, vemos Deus a colocar o Seu Espírito no Rei da Assíria, para que ele ouvisse um rumor que o levasse a voltar à sua cada e lá fosse derrotado (2 Rs. 19:7), com o objetivo para livrar o seu povo em resposta à oração de Ezequias.

 

O Espírito Santo a contender com o homem e a restringir o pecado

Depois do pecado entrar no mundo e do homem se distanciar constantemente de Deus, nós vemos em Génesis 6:3 a referência ao Espírito Santo, no sentido de que o Espírito de Deus não contenderá para sempre com o homem, devido à dureza do coração do homem causado pela presença do pecado. Se o Espírito Santo não irá para sempre contender com o coração do homem, isso significa que até esse momento foi o Espírito Santo que contendeu com os seus corações para que se arrependam. Este papel do Espírito Santo será visto mais tarde com maior evidência no Novo Testamento.

Também vemos em Isaías 44:3-5 que quando Deus derrama o Seu Espírito sobre a descendência de Israel, o resultado é que eles reconhecem que pertencem a Deus. Em Ezequiel 36: 26-27 Deus promete que irá trazer de volta o povo de Israel e que iria derramar o Seu Espírito sobre eles, e por isso eles iriam andar nos seus estatutos, deixando o caminho do pecado.

Walvoord, por outro lado, analisa muito claramente Isaías 63: 10-11, mostrando o papel do Espírito Santo na restrição do pecado na Terra: “O trabalho do Espírito em revelar a verdade através dos profetas, particularmente avisando do julgamento que sucederá, e o trabalho de inspiração das Escrituras com o seu poder, ajudou a travar o apetite pelo pecado. Os julgamentos que resultaram da rejeição da sua oposição contra o pecado (Is. 63: 10-11) tiveram o seu cumprimento. A presença e o poder do Espírito Santo pelo poder do Seu Santo Carácter conduziram à restrição do pecado. Ao longo do Antigo Testamento o poder do Espírito Santo guiava os acontecimentos da Humanidade pelo caminho da providência divina”.

 

O Espírito Santo dirigindo

O Espírito Santo também é Aquele que guia o povo de Deus. Neemias relata que o Espírito Santo estava com o povo enquanto eles estavam a atravessar o deserto até a terra prometida para ensiná-los o caminho, guiando-os até ao deserto (Ne. 9:20; ver Is. 63: 14).

Também vemos dois registos que mostram que as pessoas acreditavam que o Espírito Santo podia transportar pessoas de um lado para outro de forma sobrenatural: Em 1 Reis 18:12 vemos Obadias a falar com Elias, expressando o seu medo de que o Espírito tomasse Elias e o levasse para o outro lado, e ele não o conseguisse encontrar para o levar até ao Rei Acabe. Em segundo lugar vemos em 2 Reis 2:16 outro relato, sendo que desta vez os filhos dos profetas reconheciam que Eliseu tinha sobre ele o espírito de Elias, e então propuseram-lhe 50 homens para irem procurar o seu senhor, dizendo:  “pode ser que o elevasse o Espírito do Senhor e o lançasse em algum dos montes ou em algum dos vales.”

De uma forma mais concreta nós vemos o salmista reconhecer que uma das ações do Espírito Santo é guiar, quando numa das suas orações diz: “Ensina-me a fazer a tua vontade, pois és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terra plana.”. (Sl. 143:10).

 

O Espírito Santo nos profetas

Não há dúvida que a maior ênfase da revelação do Espírito Santo no Antigo Testamento está no livro dos Profetas.

Ali nós vemos homens cheios do Espírito Santo e inspirados por Ele para transmitir mensagens ao seu povo. No Novo Testamento Pedro garante que “porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”.(2 Pe. 1: 21). No livro de Ezequiel podemos ver com grande clareza como o Espírito Santo age na vida do Profeta de diferentes formas (Ez. 2: 2; 3:24; 3:12; 14, 8: 3; 11: 1.5, 24; 37: 1; 43: 5).

Miquéias também reconhece que a sua mensagem pertence ao Espírito Santo, quando diz: “Mas, decerto, eu sou cheio da força do Espírito do Senhor e cheio de juízo e de ânimo, para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado.” (Mq. 3: 8).

Também é verdade que naquela época muitos homens se levantavam com mensagens que pareciam vir do Espírito, mas que de facto nada mais era do que o resultado da sua própria imaginação (Jr. 23:16 -18). Também vale a pena observar um importante espeto mencionado por Routledge, que diz que os profetas no pré-exílio não mencionavam diretamente que eles estavam a falar pelo Espírito Santo para se distanciarem do comportamento dos falsos profetas das nações vizinhas.

No Antigo Testamento nós observamos outros casos de profecias, além daquelas que foram registadas nos livros proféticos, como por exemplo em Números 11:25 -29 os anciãos de Israel profetizaram quando o Espírito Santo veio sobre eles; e também Saul e os seus homens (1 Sm. 10: 6, 10; 19:20 -23).

No que diz respeito ao futuro, nós vemos que Deus fez várias promessas em relação ao Espírito Santo, nomeadamente de que Ele seria derramado sobre toda a carne (Jl. 2:28 -29; Is. 44: 3); Ele seria dado para sempre (Is. 59: 21); Ele habitaria nos corações dos homens regenerados. A velha lei tinha sido escrita em tábuas de pedra, mas a nova seria escrita no coração pelo Espírito Santo (Jr. 31: 33; 2 Co. 3: 3). E a contínua presença do Espírito Santo na vida dos crentes será a prova do resultado da graça de Deus através da morte e ressurreição de Jesus Cristo (Jn. 7:39; Hc. 2:33; Gl. 3:1-2).

O livro do Profeta Isaías é um dos que menciona Espírito Santo mais vezes, directa ou indirectamente. Neste livro encontramos passagens Messiânicas que falam do Espírito Santo, dizendo: “E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, e o Espírito de sabedoria e de inteligência, e o Espírito de conselho e de fortaleza, e o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor” (Is. 11: 2), sendo assim capaz de reinar, e julgar com justiça (Is. 3-4; 42: 1). Em Isaías 61:1 o profeta também afirma que o Espírito Santo estaria sobre o Messias para pregar, curar e libertar (ver Jo. 3:34).

Também é interessante analisar como o Profeta Isaías várias vezes intercalava profecias acerca do presente e do futuro acerca do Espírito Santo, por exemplo, Isaías fala acerca do presente escrevendo acerca de homens e mulheres que rejeitaram o Espírito Santo ao abandonaram Deus  (Is. 30: 1), mas depois fala acerca do futuro derramamento do Espírito Santo, onde todos viveriam um momento maravilhoso (Is. 32: 15-18). Vemos outro exemplo em Isaías 40: 13-17, que ao falar do presente, ele pergunta se o Espírito Santo precisa de alguém para guiá-Lo ou aconselhá-Lo, ou ajudá-Lo para compreender os juízos ou a ciência, mostrando desta forma a Sua grandeza e superioridade em relação a todos os homens e considerando o homem como nada diante de Deus; por outro lado o discurso de Isaías 44: 3-5 fala acerca do Espírito Santo como Aquele que vai ser derramado sobre o remanescente de Israel no futuro e os abençoará, e eles dirão “Eu pertenço ao Senhor”.

 

O Espírito Santo e a Palavra de Deus

O Espírito Santo está diretamente relacionado com a Palavra de Deus porque foi Ele quem a inspirou. Neste caso nós vamos falar mais especificamente do Antigo Testamento, uma vez que este ensaio se foca sobre essa porção da Escritura.

Nós iremos ver alguns textos que provam que o Espírito Santo inspirou a Palavra: David diz em 2 Samuel 23: 2 “O Espírito do Senhor falou por mim, e a sua palavra esteve em minha boca”, atribuindo ao Espírito Santo a inspiração dos seus escritos. Em Números 11:24-25 também vemos como Moisés falou a palavra de Deus ao povo e depois disse que o Espírito Santo estava sobre ele, implicando que esta era a causa da sua inspiração para falar, e também quando o Senhor desceu na nuvem e dividiu o Espírito que estava sobre Moisés sobre os setenta anciãos e eles profetizaram.  Também podemos concluir que se quando Moisés falou a palavra de Deus, estava inspirado pelo Espírito Santo, isso significa que o Pentateuco, escrito por Moisés também foi inspirado pelo Espírito Santo.

Nós constatamos que até os próprios escritores do Novo Testamento provam que o Antigo Testamento foi inspirado pelo Espírito Santo. Por exemplo, em Atos 1:16 está escrito: “Varões irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam a Jesus.” A carta aos Hebreus refere várias vezes o Espírito Santo como o autor de vários textos do Antigo Testamento que foram mencionados: “Portanto, como diz o Espírito Santo, se ouvirdes hoje a sua voz” (Hb. 3: 7, ver. Sl. 95: 7-11); “Dando nisso a entender o Espírito Santo que ainda o caminho do Santuário não estava descoberto, enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo” (Hb. 9: 8, ver. Nm. 28: 3, Ex. 30: 10); “E também o Espírito Santo no-lo testifica, porque, depois de haver dito: Este é o concerto que farei com eles depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis em seu coração e as escreverei em seus entendimentos,” (Hb. 10:15 -16, ver. Jr. 31: 33-34).

O Apóstolo Pedro também afirma: “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” (2 Pe. 1:21). Portanto nós podemos concluir que os livros proféticos do Antigo Testamento foram todos eles inspirados pelo Espírito Santo.

 

A habitação do Espírito Santo

Eu considero importante falar sobre a habitação do Espírito Santo no Antigo Testamento, porque nos permite de analisar mais precisamente o papel do Espírito Santo nas vidas daqueles que eram salvos naquela época. Será que o Espírito Santo habitava neles de forma permanente ou isso aconteceu apenas a partir do Novo Testamento com a Igreja?

Em primeiro lugar considero importante começar por traduzir a palavra habitação. Esta palavra nunca aparece mencionada na Bíblia Sagrada, é apenas um conceito teológico. Teologicamente, habitação foi definida por Erickson como ” a presença de Cristo ou do Espírito Santo na vida do crente”.  

Para Webster, habitação também é definido como “uma ativação interior ou uma força que dirige.”  Segundo McCabe a habitação do Espírito Santo no crente é uma metáfora para descrever o Espírito a sustentar de forma permanente uma relação salvífica pessoal com o crente que Ele iniciou na regeneração”. Três textos bíblicos são usados como suporte da ideia de que o ministério do Espírito na transformação de vidas providencia uma ligação inseparável entre a regeneração e a habitação: Ezequiel 36:25-27 , 1 Coríntios 2:14-15 e Romanos 8:9-11. Eles também apresentam dois textos do Antigo Testamento que parecem falar do papel do Espírito no processo de santificação de crentes do Antigo Testamento,  sendo que isso implica a necessidade da presença do Espírito dentro das pessoas: Números 27:18, Salmos 143:10. Mas muitas objeções se levantam em relação a esta perspetiva, especialmente pelos dispensacionalistas tradicionais que apresentam o argumento de que esta forma de interpretação está a cometer o erro de ler o ministério do Espírito no Antigo Testamento à luz do Novo Testamento. Outra objeção a este papel do Espírito é a tese de que, uma vez que o Antigo Testamento apresenta o Espírito Santo vindo temporariamente sobre algumas pessoas e depois deixando-as, significa que a pneumatologia do Antigo Testamento claramente não confirma essa tese. Eles também argumentam que os Evangelhos falam da vinda do Espírito sobre Cristo e através Dele para os discípulos, da mesma maneira que operou no Antigo Testamento. O Espírito estava “com eles”, mas estaria “neles,” habitando neles mais tarde no Pentecostes. Além disso, a promessa de um Novo Pacto dado no Antigo Testamento sublinha a distinção entre a experiência da presença do Espírito Santo no Antigo Testamento da dos santos do Novo Testamento. O significado do Novo Pacto está baseado na capacitação para a obediência prometida para aqueles que receberiam as bençãos desse Pacto (ver Jr. 31:33-34; Ez. 36:26-27). Se a habitação universal e permanente do Espírito nos santos do Antigo Testamento fosse real, assim a promessa do cumprimento futuro do pacto não seria uma promessa, uma vez que os santos do Antigo Testamento já possuíam essa promessa.

 

O papel do Espírito Santo no Antigo Testamento e a sua continuidade no Novo Testamento 

De muitas maneiras nós vemos a continuidade do papel do Espírito Santo entre o Antigo e Novo Testamento. Eu apresentarei em baixo alguns dos papeis do Espírito Santo que são mencionados tanto no Antigo como no Novo Testamento, com os respectivo textos bíblicos para comprovar isso.

Nós vemos que o Espírito Santo capacita: “E veio sobre ele o Espírito do Senhor, e julgou a Israel e saiu à peleja; e o Senhor deu na sua mão a Cusã-Risataim, rei da Síria; e a sua mão prevaleceu contra Cusã-Risataim.”(Jz. 3:10); “Pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus; de maneira que, desde Jerusalém e arredores até ao Ilírico, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo” (Rm. 15:19).

O Espírito Santo purifica: “Então, espalharei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E vos darei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei o coração de pedra da vossa carne e vos darei um coração de carne.”(Ez. 36: 25-26:); “Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os ladrões herdarão o reino de Deus. E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus” (1Co. 6:10-11).

O Espírito Santo guia e dirige o povo de Deus: “E deste o teu bom espírito, para os ensinar; e o teu maná não retiraste da sua boca; e água lhes deste na sua sede. Desse modo os sustentaste quarenta anos no deserto; falta nenhuma tiveram; as suas vestes não se envelheceram, e os seus pés não se incharam. Também lhes deste reinos e povos e os repartiste em porções; e eles possuíram a terra de Seom, a saber, a terra do rei de Hesbom, e a terra de Ogue, rei de Basã. E multiplicaste os seus filhos como as estrelas do céu e trouxeste-os à terra de que tinhas dito a seus pais que entrariam nela para a possuírem.”(Ne. 9:20, 23); “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez, estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.”(Rm. 8:14 -15).

O Espírito Santo revela: “Caiu, pois, sobre mim o Espírito do Senhor e disse-me: Fala: Assim diz o Senhor: Assim tendes dito, ó casa de Israel; porque, quanto às coisas que vos sobem ao espírito, eu as conheço.” (Ez. 11: 5); “E fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor.” (Lc. 2:26).

Vemos, contudo, que também existe uma grande diferença entre o papel do Espírito Santo no Antigo e no Novo Testamento. No Antigo Testamento, apesar de vermos o Espírito Santo muito activo, também é verdade que vemos algumas limitações nas Suas ações, em particular o facto de apenas um pequeno número de homens serem cheios com o Seu poder, e a duração desse enchimento, porque Ele está focado em pessoas específicas e em tarefas específicas. A partir de Atos 2, o baptismo no Espírito Santo abre novos horizontes para a acção do Espírito sobre todos os homens salvos (Mt. 3:11, At. 1: 5). O Evangelho de João também nos diz que o Espírito habitaria connosco para sempre. (Jo.14:16).

 

Conclusão

Como conclusão deste ensaio, podemos começar por dizer que após feita a análise da informação presente no Antigo Testamento acerca do Espírito Santo e após analisar muitas opiniões de teólogos sobre o assunto, não há dúvida que o Antigo Testamento ensina-nos muitas coisas sobre o Espírito Santo.

O Espírito Santo não é apenas uma força, mas sim uma pessoa com personalidade própria, como podemos ver em várias passagens que Ele tem qualidades como vontade, emoções e mente. Vemos que o Espírito Santo é mais do que uma simples pessoa, Ele é Deus. Ele tem um importante papel na criação da natureza, do homem e como sustentador da vida. O Espírito também foi a fonte de sabedoria de homens que lideravam outros homens e nações; Ele também foi a fonte de capacidade para realizar trabalhos práticos na construção do Tabernáculo. Nós vemos que Israel foi muitas vezes protegido por Ele, e mesmo apesar das pessoas pecarem contra Deus, o Espírito contendia com elas, e Ele era muitas vezes responsável por restringir o pecado na Terra, ao avisá-los dos julgamentos que sofreriam caso não se arrependessem. O Espírito também guiou pessoas, dirigindo os seus passos, Ele também inspirou os profetas para transmitirem a mensagem de Deus para o povo. A inspiração não era limitada aos profetas, mas dizia respeito a toda a Palavra de Deus. Também vimos a controvérsia que existe relativamente à habitação do Espírito Santo nas pessoas salvas do Antigo Testamento. E terminámos por ver  que muitos dos principais papeis do Espírito Santo no Antigo Testamento continuam a ser vistos no Novo Testamento, apesar do facto de que no Novo Testamento o Espírito Santo tem um ministério muito mais visível na vida da Igreja.

 

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